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Os caprichos dos clássicos Hoje vamos do clássico ao lixo, com pausas para respirar, é claro. Passo todo dia pela sala e dou um alô distraído para a estante de clássicos de capa dura e títulos de letras reluzentes. Não é nada demais, só uma série de livros daqueles que são vendidos nas bancas, do tipo "imortais da literatura mundial", naquela forma de marketing tão manjada de republicar textos consagrados - e de direitos autorais liberados - para distraídos compradores de jornais. Mas, fetichistas cultuais de marca maior, a gente gosta deles, e cai alegremente na armadilha. Não há de ser nada: pelo menos assim a gente lê, efetivamente lê, um clássico de c maiúsculo de vez em quando. E por que não o fazemos com maior frequência, por que dependemos do lançamento de mais uma coleção que compramos na banca com uma assiduidade de consumidor de cultura de massa? Talvez porque os clássicos, ao contrário do que tantos dizem, não são mesmo assim tão fáceis. Os clássicos têm seus caprichos: suas capas duras que tanto atraem quanto atemorizam; suas letras miúdas; suas manchas de textos aparentemente impenetráveis ao olhar poroso do leitor atual; seus personagens funestos e suas tramas compostas de alegorias esfumaçadas que quase sempre nos remetem a casarões embolorados e colinas fantasmagóricas. Sem falar no capricho maior dos clássicos, que é o de nos desafiar nas primeiras páginas, tirando a mente do leitor do registro coloquial em vigor e arrastando-o para outros domínios, de uma escrita congelada pela qualidade mas ainda assim dificultada pela prosódia absolutamente diferenciada. É como um muro: o leitor do clássico tem que saber escalar esse paredão antigo e compacto, achar as cavidades quase imperceptíveis numa superfície alisada pela ação do tempo literário, agarrar-se aqui e ali, subir mais um pouco, chegar o topo e, enfim, lá pela página cem, passar para o outro lado. Pronto: aí ele já estará em outro tipo de território, perfeitamente aclimatado. É quando vem o prazer da fruição que apaga as referências do computador ao lado, da tevê ligada, da vida multimídia, do compromisso esperando no tampão da escrivaninha. Pelo menos comigo é assim. E foi sabendo disso que, numa daquelas passadelas pela estante de clássicos da sala, arrisquei um olho para meu primeiro Kafka. Sim, eu sei, não precisa lembrar que não pega nada bem revelar aos 43 anos do segundo tempo que até esta referida data este que vos digita jamais havia lido tão fulgurante mito da literatura mundial. Ah, se vocês soubesses dos meus outros furos neste departamento. Por enquanto, vamos ficar no homem da barata. Falando nele, não fui ao célebre texto da barata - este vai continuar, por enquanto, anotado na minha caderneta de omissões imperdoáveis - mas a outro título do escritor que só é conhecido hoje, como todo mundo sabe, graças ao amigo Max Brod que, contrariando sua vontade, a dele, Kafka, expressa no leito de morte, não queimou os originais que o escritor tinha em casa. Sem pestanejar (eu sabia que algum dia nesta vida teria a chance de usar essa expressão tão cara às minhas leituras infanto-juvenis), avançei para a estante de clássicos e agarrei, antes que pudesse mudar de idéia, "O Castelo". Por esta razão, estou há dias convivendo com a difícil e absurda tarefa do senhor K. (não confundir personagem com autor, embora provavelmente este tenha sido o propósito) que tenta, sem sucesso, estabelecer algum contato que seja com os senhores do Castelo para onde foi chamado a fim de realizar um trabalho de agrimensor, sua profissão. Por mais que tente, o senhor K. não consegue passar da barreira dos moradores da vila que fica abaixo do Castelo, na explícita hierarquia simbólica que Kakfa satiriza com a maior seriedade nas páginas do romance inacabado. Estou na metade, mas sabendo - como informa a última página, "fim do manuscrito" - que este é um dos textos incompletos que Kafka deixou, já estou de expectativa preparada para saber que K. jamais chegará ao Castelo. O que importa, mais que o final inexistente, é o percurso inútil, do homem que tenta realizar sua missão e não consegue mais do que andar em círculos sem sequer se aproximar da ponta mais distante deste cordão invisíveis que nos tece a vida. Não é um livro otimista - lembre-se, é um clássico. É um exercício de especulação sobre a inutilidade tantas vezes dominante. E embora eu, leitor, tenha uma visão ligeiramente mais animadinha do que seja a nossa breve passagem por este mundo, não tenho como não admitir que essa expressão do vazio é efetivamente um elemento da condição humana. O Kafka que encontrei no "Castelo" não é intrigante como o "Rei Lear" de Shakespeare, ou divertido como o "Dom Juan" de Molière - e todos são clássicos, pra ver que até entre eles existe diversidade, o que invalida muitas das considerações gerais que sobre eles são feitas, inclusive as deste texto aqui. Mas o que me incomoda mais, na escalada daquele muro a que me referi algumas linhas acima, é o cenário tão diverso, o enxugamento das personas, o caráter fortemente simbólico de camponeses, tabernas, florestas e do próprio castelo inalcançável. Leitor educado nas tão próximas cenografias sertejanejas e brasileiras de um José Lins, um Jorge Amado e um Graciliano Ramos, ainda sofro do mal de me situar em geografia tão diversa quanto a das plagas européias quase orientais de onde vêm tais romances. Talvez eu esteja lendo as piores traduções, mas o fato é que o senhor K. me impõe a mesma dificuldade do jovem Raskólnikov, do "Crime e Castido" russo, onde eu tremia de frio entre páginas, tundras e rios congelados, num bloqueio de identificação que subtraiu grande parte do prazer da leitura. Curioso é que me senti mais confortável do que nunca navegando na "Jangada de Pedra" de José Saramago, aquela extensão de terras formada por Espanha e Portugal à deriva no indomável Atlântico. Vai ver são as proximidades invisíveis que ligam Seridó e Sevilha, Lisboa e Parnamirim para ser mais atual. E todos são clássicos - velhos e novos. Castelos difíceis mas muito interessantes de se invadir e penetrar. Falei que iria do clássico ao lixo, mas a divagação se impôs e a postagem abusou. O lixo vai ficar para as próximas, mas também há ainda alguma porção de bom gosto para que a leitura se torne suportável. Ia falar do ensaio filmado "Tout va bien", o "Tudo vai bem' de Jean Luc Godard que, consumidor cultural eternamente defasado, também só agora pude apreciar. Um lindo dircurso audio-visual sobre o fim das utopias feito em 1974 - um filme para ser ver nos estertores das comemorações pelos vinte anos da queda do muro de Berlim pelo que tem de antecipatório (e não apenas da queda, mas do discurso que se seguiria a ela). Antes que alguém se empolgue, tenho que dizer que também fazia parte do roteito minha mais nova - e, mais uma vez, defasada - incursão no universo chão do senhor Dan Brown, pelo qual começo a nutrir uma dependência submarina. Fica como gancho para as próximas, se é que ainda haverá alguém por aqui.
Escrito por tião às 13h16
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HAMAQUEANAS
"Assim, pois, meu velho confidente, num espírito de congraçamento, antes que nos juntemos aos demais - os que estão encalhados aí por toda parte, inclusive, estou certo, os loucos do volante de meia-idade que insistem em nos mandar para a Lua, os vagabundos que se creem iluminados por Buda, os fabricantes de cigarros com filtro para os homens que sabem escolher o melhor, os beatniks, os mal-ajambrados e os petulantes, os adeptos de cultos obscuros, todos os imponentes peritos que tão bem sabe o que devemos ou não fazer com nossos humildes orgãos sexuais, todos os jovens barbudos, orgulhosos e iletrados, bem como os guitarristas sem talento, os assassinos do budismo zen e os deliquentes juvenis de roupas padronizadas, todos essses que, do alto de sua infinita ignorância, olham para este esplêndido planeta por onde (por favor, não me interrompa agora) passaram o Biriba, Cristo e Shakespeare - , antes de nos juntarmos a todos eles, eu muito particularmente lhe peço, velho amigo (para dizer a verdade, quase imploro), que aceite de mim este despretencioso buquê de recém-desabrochados parênteses: ((((())))). De forma muito pouco floral, desejo com ardor que eles sejam antes de tudo recebidos como símbolos propriciatórios - algo sinuosos ou mesmo recurvos - de meu estado físico e mental ao escrever este texto." Buddy Glass, em "Seymour, uma introdução" (J.D. Sallinger)
Escrito por tião às 00h51
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Selling, Seymour, Samarone e Marcelino - um passeio Demorei, mas tenho motivo. É que estava ocupado vencendo a pilha de livros que me esperam na ordem caótica de um leitor desorganizado. Hoje tenho três concluídos e empilhados. Vamos começar por mais um Samarone Lima, que é o mais marcante do grupo - e olhe que em matéria de qualidade o trio que apresento aqui hoje é dos mais competitivos, com o perdão dessa palavra tão nefasta. Enfim: depois de deglutir algo engasgado as agruras do ocaso do projeto cubano que Samarone nos mostra em "Viagem ao Crepúsculo", resolvi encarar o "Clamor - A Vitória de uma Cospiração Brasileira", que é a transcrição em forma de livro da tese de mestrado do escritor pernambucano. Por mais que a gente abra a primeira página e leia o primeiro parágrafo entre fotografias com aquele ar politicamente sufocado dos anos 70; por mais que orelha e texto de capa nos informem que se trata da história de como um grupo de pessoas se reuniu para resgatar crianças, filhos de ativistas políticos, que as ditaduras latino-americanas sequestraram e largaram por aí; enfim, por mais que esses dados soltos e conjugados nos preparem para uma leitura no mínimo dolorosa, não é nada perto da experiência direta de ler este livro linha por linha, página por página. E é então que o crepúsculo cubano, aquele mesmo tão sofrido, decepcionado e desesperançado, fica parecendo brincadeira de criança perto das narrativas que Samarone vai dispondo capítulo a capítulo deste "Clamor" (editora Objetiva, 2003). Somos apresentados ao drama de casais latino-americanos que, tendo suas casas invadidas, são sequestrados para prisões clandestinas junto com os filhos - quando não são fuzilados pura e simplesmente, sendo as crianças levadas para um périplo entre presídios, fronteiras, carros desconhecidos e tias anônimas. Até terminar, como acontece no caso mais emblemático (por mais forte) dos irmãos Anatole e Vick, filhos de uruguais mortos na Argentina (onde se refugiaram antes do golpe de 76 contra Isabelita Peron) que vão parar numa praça gelada em Valparaiso, no Chile. Os irmãos, de 4 e um ano e meio quando do sequestro, acabam adotados por um casal que sofrerá tanto quanto sua abuela quando as linhas se cruzarem - graças à atuação do grupo Clamor - e ficar claro a origem daquelas crianças, com a pergunta igualmente dolorosa pela frente: e agora, quem fica com elas? Dito assim, até parece que não sabemos da "Operação Condor", que vem a ser a imagem invertida do trabalho político e humanitário do grupo Clamor", mas é que, alinhavadas no livro de maneira a compor um painel completo, o panorama que surge reorganiza as informações dispersas que temos sobre essas chagas de Latino América. O livro de Samarone mostra toda a boa vontade e todo o esforço feito pelo grupo do qual faziam parte gente como Dom Paulo Evarismo Arns, o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh (aquele mesmo que, soberbamente, alguns anos atrás, perdeu a presidência da Câmara dos Deputados para o inocente útil Severino Cavalcanti) e o pastor Jaime Wright. E nesta aventura narrativa cheia de dor - mas também de esperança e crença no ser humano - nos leva a mais uma vez rever a história recente do nosso continente aqui embaixo, num martelar de memórias que não devem ser esquecidas, por mais que o esquecimento tenha a força das coisas que não se vê. Com um agravante que torna tudo ainda mais incômodo: um certo paralelo que os integrantes do Clamor estabelecem entre a repressão integrada latino-americana, esse Mercosul do Horror, e o nazismo alemão dos anos 30-40, impressões que Samarone reproduz fielmente no livro. Dor e crença na humanidade resgatável por baixo de camadas de sadismo político ou social também estão presentes no segundo livro desta pilha. Saímos do relato histórico do passado para o registro literário do presente no grande "Contos Negreiros" - um destes livros que todo mundo que tem bom gosto e é antenado com o que acontece no panorama livreiro já leu, já aprovou, já está em outra. Com meu atraso contumaz, devo dizer que só agora, meses e meses depois que o colega Cláudio Ferreira me deu o livro de presente, é que fui nadar nas águas do festejado escritor pernambucano. Só para constatar, com atraso mas não menos entusiasmado: que grande pequeno livro é esse. São minicontos, tão curtos quanto marcantes, sobre personagens do Brasil de hoje, essa mistura de Honduras com São Paulo, Pernambuco e Amapa. Contos editados de uma maneira primorosa e que, como o próprio título diz, atualiza a condição da ralé dos porões dos barcos, toda essa gente que hoje respira o ar puro das periferias e centrões das grandes cidades como se fosse uma multidão invisível aos olhos dos bem-aventurados na vida. Não é fácil treinar a sensibilidade para abordar esse tipo de personagem sem cair no discurso, essa tentação constante. Pois Marcelino Freire surfa elegante sobre a miséria colorida que emoldura a vida brasileira - sem levantar uma bandeirinha que seja. "Contos Negreiros" (editora Record, 2005) é um daqueles livros que já nascem clássicos. Compre, leia, releia, recomende e guarde bem seu exemplar na estante, que este veio para ficar. Para relaxar do peso dessas duas incursões livreiras, resolvi investir na zen-literatura do velho, bom e reservado J. D. Sallinger, que está de volta às livrarias não só com uma nova edição do clássico "O Apanhador no Campo de Centeio", mas também, naqueles lançamentos de bolso da L&PM, com uma reedição baratinha de "Carpineiros, levantem bem alto a cumeeira" e "Seymour, uma introdução", reunidos no mesmo volume. Eu queria matar as saudades daquela genial, sensível, estranha e terna família formada pelos irmãos Buddy (o narrador deste "Carpinteiros"), Seymour, Boo Boo, Franny e Zooey, com que travei conhecimento, pra meu deleite de leitor, nos idos de 1988, na biblioteca de meu amigo Carlão de Souza. É a família Glass, frágil e visionária ao mesmo tempo como o próprio sobrenome que tem sugere - tipos que Sallinger criou e que povoam, além de "Carpinteiros" (lançado nos anos 80 pela editora Brasiliense com o título "Pra cima com a viga, moçada"), os livros "Nove Estórias" e "Franny e Zooey". Eu havia lido todos, tinha uma saudade danada e sabia o quanto é difícil encontrar velhos exemplares deles mesmo em sebos (quem tem um não é maluco de se desfazer, já que quase não há relançamentos) até que encontrei o exemplar de capa azul, zen, discreto e quase invisível como são os filhos da família Glass, nessas estantes de livros baratos que salvam almas e bolsos até nas livrarias mais reluzentes. Deve ter custado umas 15 pratas, se tanto. Corra - onde você está também tem. Leia, você vai gostar, não duvide, e torça, comigo, para que a L&PM faça o mesmo com os outros dois livros iluminados pelo olhar zen dos Glass. E aprenda com eles - ou constate, caso esse tipo de impressão já faça parte de sua vida - como a humanidade se divide entre os realistas mais estreiros (aqueles que gritam ao mundo que só enxergam o que está bem de frente ao próprio nariz; e nem se importam com quem pensa diferente) e os poetas sem poemas, aqueles que vêem o mundo sob um incômodo prisma que tem a mania de sempre encontrar um outro sentido para o que aos olhos dos outros parece evidente demais. Como dizia Julio Cortázar, com seus "cronópios e famas". E se você quiser saber mais sobre o assunto, não pergunte a mim, ligue para Jô Medeiros, lá em Natal, que a professora vai lhe passar todo o recado. Ela entende disso como o próprio Seymour Glass, ele mesmo, que, pode crer, é o máximo a que este outro tipo de gente visionária pode chegar.
Escrito por tião às 12h57
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Mantenha distância - se puder! Se você não suporta mais a bossalidade dos tempos atuais, a repetição dos acordos políticos que deveriam estar mortos e enterrados lá na triste crônica política dos anos 80, o elogio da fama vazia, a apologia do deslumbramento e toda essa sujeita que por mais que seja varrida sempre permanece sob e sobre nossos tapetes, então existe um livro que você não deve ler jamais. Porque ele trata da vida louca vida de um sujeito que tanto quanto se divertiu enquanto entre nós esteve também serviu de metralhadora cínica contra tudo isso que já existia enquanto era vivo - mas não na escala astronômica atual. Era cruel, impiedoso, vingativo, mas também sedutor, genial, irônico e divertido. Por tudo isso, evite, mantenha distância, não caia na tentação de ler a rápida - até superficial, sem maiores investigações sobre episódios menos claros - biografia que o jornalista Tom Cardoso escreveu sobre a vida dele.
Pois foi exatamente o que o otário aqui fez no finalzinho das férias: ler "Tarso de Castro - 75 Kg de Músculos e Fúria" (Editora Planeta). Pense numa figura e num livro impróprio para quem já sofre o bastante com os dias atuais. Pois o maluco iluminado e mau caráter que era o gaúcho de Ipanema Tarso de Castro lhe leva de volta para um tempo em que certos jornalistas tinham a petulância de tentar ser diferentes entre si, em que a palavra coragem constava do dicionário da categoria, em que a imprensa mesmo amordaçada pela censura era capaz de rasgos de clarividência e mordacidade, em que o consumo de drogas e álcool ainda não havia resultado nessa doença social de hoje em dia, mas ao menos não era praticado com essa falta de propósito atual, da satisfação burra, imediata e exibicionista. Era o mundo de Tarso de Castro - e todo mundo adorava Tarso de Castro, inclusive os que o destestavam, e para tanto tinham montanhas de motivos. Não sou do tempo do "Pasquim" histórico - aquele que abriu uma clareira na imprensa brasileira com sua coloquialidade, seu humor, seu atrevimento de coisa viva. Tarso era o homem por trás dessa invenção. Quando passei a ler Tarso de Castro, tudo isso já era história. Fui encontrá-lo, talvez já bem decadente (ele, não eu, viu?) nas páginas da revista "Afinal", uma semanal interessante que circulava aí por 1987-88, acho que era um projeto de Fernando Mitre, e que não sei por que acabou fracassando. Mas, nestes tempos de época, veja e istoé iguaizinhas, não custa acrescentar que era uma alterantiva interessante, com artigos de gente como Hermano Alves, naqueles tempos de governo Sarney - êpa! - estrebucando de escândalos. Lembro até hoje de um texto de Tarso em que ele distrai o filho enquanto toma todas no boteco e fala mal de deus e o mundo - num falar mal repleto de verdades que só ele mesmo pra ter coragem de verbalizar - para no final implorar, como já se tornava costume: "Dá pra mim, Xuxa". (um parênteses: praticamente toda semana tento achar uma pista, um texto, uma reprodução sequer de uma capinha da velha "Afinal" na internet e nunca encontro nada - é como se a revista, que eu e meu amigo Jano Sérvio líamos avidamente toda semana, nunca tivesse existido nesse paisão sem memória). O objetivo deste post era recomendar, às avessas, o livro com a biografia superficial de Tarso de Castro. Bem que eu tentei não ler, e bem que tentei não recomendar. Isso não é coisa que se faça. É o sujeito começar a ler e passar a sentir uma estranha coceira de quem quer voltar no tempo - levando em consideração, claro, que a gente sempre guarda na caixa da memória a parte boa de qualquer tempo. Mas, dada às danações desnecessárias que temos visto no tempo atual, toda necessidade de retorno é compreensível e estimulável. Então, lá fui eu rumo aos tempos velozes do velho Tarso de Castro. Pra não dizer que não avisei a quem cair na mesma esparrela que eu, deixo a título de parágrafo final a transcrição da transcrição de um trecho de texto de Otto Lara Resende, publicado na Folha de S. Paulo, dois dias após a morte de Tarso (morreu de quê? alguém não sabe? bebeu até morrer, foi assim mesmo, e por opção). Segue o trecho (com toda a ironia se você fizer o link entre o que diz Lara Resende e o Brasil de hoje, tantos anos depois): "A vida jogada fora, num gesto de desdém e de rebeldia. Mas onde está vida dos que a depositaram na poupança? Na vertigem com que vivia, no seu furor, havia, sim, um sinal de maldição. Sua morte nos punge como um remorso. Tantas imposturas, tantos vencedores! Adeus, Tarso."
Escrito por tião às 13h06
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OUVINDO A VOZ DE DEUS
Imagino que, diante de Deus em pessoa, nem nós, pecadores vulgares, nem ele, criador supremo, precisem usar a palavra falada para se comunicar. Esse tipo de encontro deve ser uma coisa tão sublime que dispensa formas de comunicação mais ligadas às limitações terrenas. Mas, insisto, caso esse Deus improvável mas por isso mesmo tão presente na vida de todos e cada um precisasse se comunicar com um resto humano como eu e você, então, meu amigo, eu não teria dúvida nenhuma: Deus teria a voz de B.B. King. Aquele timbre negro, aquele farfalhar de aparelho vocal gasto, aquela cor auditiva entre o conforto do marrom e a inquietação do preto, aquele tom de avô mítico, e ao mesmo tempo, pop. Se “Eric Clapton é Deus”, como se escrevia nos muros de Londres nos anos 60, então B.B. King é a voz com que Deus se permite ser ouvido na terra, embora sem se apresentar assim que é para não vulgarizar sua valorosa presença. Quem se der ao trabalho de ouvir o homem, escutará a pronúncia sofrida deste Deus. Não falo da guitarra célebre, tampouco preciso me deter no colchão sonoro onde a voz se deitar para orar, descansar ou amar, que é o velho blues daquele sul ao norte tão rancorosamente racista. A voz se basta, o esganiçar plangente de corda viva de guitarra humana, vertendo sangue e beleza, dor e êxtase cada vez que canta. Tudo isso me ocorreu enquanto ouvia, duas vezes seguida, headphones entupidos nas profundezas dos ouvidos, o CD que reúne BB. King e Eric Clapton, que o mundo já deve até ter cansado de ouvir. Pois pra mim, que sempre tropeço atrasado numa revelação banal de esquina, foi como ouvir a primeira missa, celebrada pelo próprio deus King com seu sacristão Clapton. Ouvi aqui em Acari, RN, onde estou desde quarta-feira, sempre na sala da casa da minha cunhada Sandra, que é uma espécie de varanda aberta para a rua. Nas janelas, passa o tempo todo um filme sem diretor, com a participação especialíssima dos populares que sobem e descem a rua da Matriz. Fachadas com ecos da década de 30, caminhões que cortam a BR-226, muito chapéu como os que usava meu pai, a edição vai se compondo desses elementos. Agora imagine tudo isso com B.B. King e Clapton tocando blues no seu ouvido. Não foi nada planejado, eu apenas comprei o CD porque finalmente o encontrei naquelas promoções das lojas Americanas (eu tenho muitos compromissos, meu amigo, não posso empregar o meu dinheiro com os discos que muito me interessam), botei na mala de “supérfluos” que sempre trago a cada viagem e, aqui, finalmente resolvi ouvir. E encontrei a trilha sonora perfeita para o cenário desta cidade: uma música que vem de outro interior habitado a duras penas e colonizado a ferro e fogo, com todas as chagas que essa ocupação produz, e todas as musicalidades que essas coisas são capazes de provocar. É por isso que, no Mississipi ou no Seridó, com um pouco de esforço dá sim pra ouvir a voz de Deus. Se você não tiver à mão um B.B.King para ouvir, experimente um Luiz Gonzaga que a epifania muito provavelmente será a mesma.
Escrito por tião às 11h19
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Cinema, samba e feitiço Que "O Clube do Filme" é um livro do tipo ligeiro, com um pé no ensaio rápido e outro no entretenimento veloz, já estava claro. Que se tratava de ler de uma maneira mais específica um punhado de filmes quase todos clássicos ou a caminho de subirem a esse patamar também já era algo esperado. O que eu não imaginava é que o livro do canadense David Gilmour fosse, no fundo e na superfície, muito mais uma crônica sobre o relacionamento entre um pai do tipo, digamos, "moderno", e um adolescente de categoria, digamos, "clássica" - ou seja, mais entediado do que uma parede pintada de branco-gelo. Pois nos primeiros capítulos, é esse o panorama que surge. Ao contrário do que as resenhas nos jornais sugerem, não se trata de "um livro analisado por capítulo", ou algo assim. Nem de estabelecer conexões mais exatas e desenvolvidas entre os pontos de contato entre as angústias juvenis e o conteúdo dos filmes. Nada disso - embora isso esteja presente, claro. É que, dito assim, parece um negócio de manual exploratório do cinema para fins pedagógicos na relação pai-filho. E, novamente, repito, não é nada disso.
Depois das constatações sombrias de Samarone em "Viagem ao Crepúsculo", fui direto à leveza chamativa de "O Clube do Filme" e descobri que se trata quase de uma novela - aquele gênero entre o conto e o romance, de episódios breves porém marcantes que caracteriza a escrita mais sutil e elegante. E, no entanto, é não-ficção pura, um relato real sobre uma relação verdadeira entre o pai que admitiu tirar o filho da escola que este não suportava mais frequentar com a condição de que o garoto assistisse a três filmes por semana na companhia paterna e depois se dispusesse a fazer conjuntamente uma avaliação rápida. E é assim mesmo: tudo muito rápido, o pai-narrador às vezes passa por três filmes (três grandes filmes, o que chama ainda mais a atenção) sem se deter tanto no cinema quanto no impacto que as exibições provocam no garoto. E muitas vezes o impacto é zero: daí a perplexidade do pai, daí a verdade do relato que expõe esse espanto e busca entender melhor não os filmes - como se poderia esperar inicialmente - mas o garoto (ou seja, a geração) para quem eles são exibidos. Sendo assim, é muito melhor do que aparenta - e eu ainda estou ali pelo quarto ou quinto capítulo. Além do "O Clube do Filme", a gente vai passando os dias por aqui com uns programas noturnos completamente não-marcados, para onde Rejane me arrasta com aquele jeito que só ela tem (o método chama-se "não avise antes e tenha paciência quando ele disser não, não e não, porque na hora agá ele estará lá sem reclamar"). Foi assim que me vi no meio de um acontecimento que jamais, nesses treze anos de Brasília, imaginei haver no que nosso amigo Gustavo de Castro chama de "capital dos crachás": uma "roda de samba" no meio da rua, digo, da quadra - ou mellhor, numa espécie de "dente de quadra", um cantinho meio distante tanto dos prédios residenciais quanto da comercial que há entre cada par de superquadra no Plano Piloto. Foi no estacionamento, pequeno e discreto, da agência dos Correios na 204 Norte. Uma roda de samba mesmo, sem a menor estrutura mas com animação máxima. Coisa de universitário no campus da UFRN, ares de lual na Ponta Negra de antigamente, clima de "festa do PT" (lembra?). Pra começar, todo mundo de pé - não tem cadeira, banquinho, coisa nenhuma. Só pros músicos, claro, que manejam cordas e percussão num pequeno grupo sentado em círculo. Fomos lá para Rejane encontrar Katja, jornalista nossa amiga que agora mora em Salvador. Fumo uns cinco cigarros caretas do tipo praticamente sem filtro, mais uns três alternativos de extração ultrapotente, tudo como fumante passivo, claro, fico ligeiramente animado, conheço gente que nunca vi, gente com cara de quem tem mais alma do que a média profissional dos viventes da cidade, a conversa gira em torno da vergonha que Lula tá fazendo a gente passar com essa história suja de acobertar Sarney e companhia, e fico sabendo que a tal roda de samba é a coisa mais antiga de Brasília. Só eu não sabia. Que toda terça-feira rola esse encontro em algum lugar, que já foi em bares mas a vizinhança andou reclamando, de maneira que agora é nesses "terrenos semibaldios" como esse estacionamento de agência dos Correios na Asa Norte. E quem tem um micro-ônibus (ausente nesta noite) acompanhando os músicos, que abastece a turma com a venda de bebidas. Comida não tem - quem vier depois de um trabalho puxado como era o meu caso, que coma antes em algum lugar. Coisa estranha, mas que dá à noite de Brasília um ar levemente litorâneo, uma atmosfera de capital nordestina. Um presente inesperado depois de um dia pesado, pra vocês verem que nem só de arranca-rabos no Senado vive esta cidade - embora esses também pareçam bastante divertidos e diversifiquem um pouco a chatice da programação nas pequenas tevês que a gente espia enquanto trabalha na redação. Na noite seguinte, fui arrastado para o show do natalense Geraldo Carvalho no Feitiço Mineiro, lugar de que continuo não gostando muito: superlotado, abafado, teto baixo, som ricocheteando entre as paredes, tão ruim que, na hora em que o público vibra com o show, fica... bom, muito bom. Primeiro porque parece que tanta falta de espaço aproxima mesmo as pessoas. Em segundo lugar porque, na noite de ontem especificamente eu, lembrado do efeito benéfico das baforadas passivas da noite anterior, já havia tratado de beber um pouco de vinho com Roberto Homem, nosso anfitrião nesses eventos, e de entrar minimamente no clima dos frequentadores da casa. E veio outra constatação: eu devia mesmo era beber, encher a cara toda noite. Cheguei a essa conclusão reparando na cara animada, relaxada das pessoas assistindo ao show. Um tal abrir os braços e cantar a plenos pulmões, aquele aceno de meio de rua no Alecrim, alguma comilança que também é uma especialidade da casa, uma certa luz especial e noturna que parece subir do chão e banhar o espirito geral da moçada. Chego lá, que estou velho mas ainda há tempo. Enquanto espero, é contar os dias que faltam para a terça-feira chegar e, com ela, as férias de onze dias e, com elas, a viagem habitual para Acari-Natal, na rota dos corações saudosistas.
Escrito por tião às 16h50
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Cuba, por Samarone Acabei de ler "Viagem ao Crepúsculo", o novo livro de Samarone Lima, que narra a viagem feita por ele a Cuba, numa temporada encerrada poucos diantes antes do anúncio da "aposentadoria" do velho Fidel. Enquanto as impressões completas não vem lá no "Sopão", antecipo aqui o comentário que deixei no blogue de Samarone, o "Estuário". O lançamento é da editora Casa das Musas, aqui de Brasília e esta semana tem lançamento lá em Recife (mais informações em www.estuario.com.br). Segue o comentário postado: Comecei a ler a "Viagem ao Crepúsculo" no final da noite de terça-feira passada e acabei, impaciente, às 01h50 da madrugada de hoje. Atravessei o livro inteiro com o mesmo sentimento de perplexidade que lhe atingiu em cheio a cada dia em Cuba. Fosse outro narrador, outra fonte, outra intenção e talvez eu não acreditasse em tudo o que está ali. Mas a credencial do seu nome, a honestidade patente do relato e a sinceridade desarmada do narrador têm um efeito tão forte quanto a própria natureza dos fatos contados. De longe, a gente realmente não imagina a extensão do crepúsculo cubano. E só mesmo uma testemunha muda com imensa capacidade de ouvir, como foi você na sua viagem, é capaz de nos fazer chegar mais perto daquela realidade tão doída quanto menos idealizada vai se tornando. Hoje, no café da manhã, comendo minha gororoba de melacia, iogurte e mel, lembrei de celeste e daquela velhinha que reclama da fome que dá quando o dia está mais frio. O estômago ainda está revirado, enquanto o cérebro ainda tenta reorganizar a refeição informativa que o livro oferece, com o mais sentimental dos distanciamentos. Quando digerir melhor, coloco um comentário mais assertivo no Sopão. Por enquanto, tudo é impacto, causado por um livro que deveria ser vendido em pacotes, junto com o velho "A Ilha" e o já empoeirado "Fidel e a Religião". Juntos, eles formam uma espécie de "trilogia do desencanto". E como dói.
Escrito por tião às 16h06
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"Deixa o verão pra mais tarde" Rapaz, apareceu aí uma tal de Mariana Aydar que quase não deixa mais minha pobre audição em paz. São onze faixas que passam rápido e sem que eu me dê conta vão se repetindo no carro, no quarto ou, quando nenhuma caixa de som está ativada, na memória mesmo. Um refrão preso que nem carrapato por trás da orelha, chupando meu sangue e eu achando bom, dizendo assim: "deixa... deixa o verão pra mais tarde..." Fui consultar e vi que é coisa daquele Rodrigo Amarante, da ex-banda dos hermanos barbados. Mas na vozinha dela, com um ar levemente infantil, sonoridade de pin up pop, flauta vocal de ninfeta sonora - é de viciar. Então, é isso: durante uns três dias, ouvi Mariana Aydar dia e noite, num CD promocional, desses que vem com o mínimo de embalagem mas conteúdo musical intacto, a 12 pratas que valem cada centavo. O disco se chama Kavita 1 e, descobri depois, desatualizado como sempre, que é apenas o primeiro disco da moça paulistana - filha, vejam só, de Mário Manga, um dos caras do Premê (sim, o grupo Premeditando o Breque). Bom, mas já tem aí então outro CD estourando na crítica dos jornais embora eu ainda não tenha chegado lá - vamos com calma, que agora tem as crianças etc e tal. Enquanto isso, vou arrancando jóias líquidas dessa nova pedreira musical que começa enganando com um cover de Clara Nunes para logo descambar em acentos mais pop-alternativos, num resfolegar de letras que lembram o surrealismo cotidiano do negão Melodia, por assim dizer. Deixa... deixa o verão pra mais tarde... Pra variar um pouco, na prateleira de catálogo sempre se encontra uma joinha discreta, daquelas que passam despercebidas por trás dos cartazes gigantes de Ivete Sangalo. Alguma coisa bem esquecida, como a trilha sonora do filme "No Coração dos Deuses", do cineasta Geraldo Moraes. O filme tem a melhor das intenções e a pior das realizações. Dá pena a precariedade da produção por trás do desejo de acertar. Tem, admita-se, a honestidade do propósito, o abraço da ilusão de contar uma jornada histórica repleta de fúria anhanguérica das coisas aqui do Góiás remoto. E a trilha, de André Moraes com participação de Igor Cavalera, contraria o filme e é boa exatamente por isso, pela capacidade de transmitir um estado de excitação desbravatória que a história mostrada em imagens falha em atingir plenamente. Esqueça o filme, ouça a trilha e viaje, entre tambores, cordas e guitarras, na imaginação de quem foi vítima e carrasco nas sombra do Brasil primordial. Entre sessões de câmara que dedilham horizontes tão fascinantes quanto misteriosos e riffs endiabrados dos metais das sepulturas, a música que vem do filme se equilibra entre as cordilheiras da nova terra. Como a dizer, parafraseando o dito pop-musical das cidades: - Cuidado, amigo, que há perigo nas matas.
Escrito por tião às 17h58
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Depois do recesso Acabou o meu recesso de meio de ano. Volta à ativa, projetos entubados, demandas empilhadas, hora de tirar o pó de coisas que foram sendo planejadas e quase automaticamente esquecidas. Em casa chegou um envelope branco, grande, com um endereço de remetende que me remeteu aos anos 80, Natal-RN, avenida Tavares de Lira, prédio da Tribuna do Norte, sala do arquivo. É o nome da rua da remetente que provoca o arrepio bom, desses que a gente fica contente em sentir: rua Jornalista José Mussoline Neto. Foi ler e sentir os olhos marejarem. Mussoline, pra quem não conheceu, era um velho jornalista da Tribuna que ainda encontrei no batente, cuidando do arquivo do jornal, quando lá cheguei numa condição entre estudante e profissional, um meio termo muito aquém da extinção do diploma. Saudades de Mussiline e seu hábito, entre automático e irônico, de temperar a garganta enquanto conversava com a gente. Não que ele não precisasse de, vez em quando, bulir com o bichinho do ran-ran. Mas é que o fazia nos momentos mais interessantes a depender do rumo que tomasse a conversa. O ran-ran de Mussoline era uma palavra a mais, o comentário final - justo aquele que demolia tudo o que de ridículo houvesse relacionado ao assunto tratado. Ran-ran. O envelope quem mandou foi Valéria Oliveira, com um CD bruto com as músicas do novo disco, pra eu ouvir e preparar um texto. O tipo da tarefa que a gente faz com prazer e insegurança. Prazer porque ouvir Valéria antes de todo mundo e ter a chance de dizer com antecedência da beleza da música em que ela ainda está trabalhando é sempre um privilégio. Insegurança porque, sem ser crítico musical ou coisa que o valha, a gente tem sempre consciência da impossibilidade de precisar apenas com a sintaxe e a gramática o real poder daquela música que aquele disco traz. A música, se sabe, é uma experiência tão mais transcedente do que a linguagem escrita que tudo vira uma grande covardia, por assim dizer. Mas vamos lá. Ainda não ouvi o disco, do momento em que acordei do recesso e me decidi a desempilhar os atrasados ainda não houve aquilo que poderia chamar de momento certo. Estive ocupado, mas chego lá. Estive mesmo - e a ideia é estar sempre, pra não perder tempo: impaciente com a leitura que nunca acaba da biografia de Gabriel García Marquez, "Viver para contar", e de um apanhado de reportagens sobre as enrascadas americanas na Afeganistão e Iraque ("Cadeia de Comando", de Seymour Hersh), resolvi trair meu velho código de leitor fiel, na cláusula que me me impede de começar um terceiro livro quando já há outros dois em andamento. Com todo respeito, f. Não dá pra ficar olhando pra capa de "Viagem ao Crepúsculo" no banquinho de cabeceira, com aquela triste e no entanto bela foto em branco e preto sobre a decadência cubana, sem embarcar na narrativa de Samarone Lima. Nosso amigo Gustavo de Castro lembrou de mim, e sou sempre grato a ele por essas lembranças, e me trouxe, quase ao mesmo tempo em que saiu da gráfica, um exemplar do livro lançado pela editora que ajudou a fundar, a Casa das Musas. Samarone, que conhecia do blogue Estuário, onde cheguei a partir do blogue de Gustavo, e a quem finalmente encontrei pessoalmente no lançamento de outro livro recente da Casa das Musas, é, estou falando de Samarone, uma pessoa insuspeita para nos contar sobre a Cuba de hoje, essa Cuba quase mas não totalmente pós-Fidel, umas dez praias depois da Cuba mítica dos anos 60 e umas outras vinte depois da Cuba idealizada por Frei Betto nos anos 80. Samarone pratica aquilo de que outro dia falou Martha Medeiros, grande cronista da revista dominical de "O Globo": a sinceridade revolucionária. Dizia a gaúcha Martha que não há nada mais revolucionário do que a sinceridade. E nos incitava a comprovar: diga uma frase sincera, exponha realmente o que está pensando e, sobretudo, tenha a ousadia de explicitar suas dúvidas e ignorâncias e o mundo cairá diante de você sem saber para onde ir ou o que fazer. Porque a sinceridade é revolucionária e sobretudo desconcertante. Pois é isso o que Samarone faz no seu relato sobre o crepúsculo cubano (ele esteve na ilha numa temporada poucos dias antes de Fidel anunciar a aposentadoria oficial e ceder o lugar para o irmão Raul). Samarone, como um viajante que é - e nunca um turista - conviveu com o povo cubano de verdade e conta o sacrifício impressionante que é a sobrevivência diária da gente da ilha. E está autorizado a fazer fazer isso, credenciado - nele você pode confiar, pois que não se trata de um direitista com sorriso de hiena pronto a tripudiar da boa fé dos esquerdistas que desde 1959 não podem negar, nem teriam porque, a simpatia pela ilha. Peguei pra ler na hora de dormir, meio na base da curiosidade, meio para acenar para o sono, e lá se foram 50 páginas e uma ordem imperiosa que dei a mim mesmo: pare agora e vá dormir que amanhã tem mais. Não fosse assim, sei não. Na linha de tiro, também está esse livro do pai canadense que concordou em tirar o filho adolescente da escola, como o garoto queria, desde que os dois passassem a ver três filmes semanalmente e depois comentassem o que vissem. Uma pedagogia dessas tem um forte apelo sobre mim - é o livro que eu tenho que ler, uma coceira mental que não passa com pomada nenhuma. E ainda tem uns projetos de dramaturgia para rádio, coisas correndo por fora que não sei se vão colar. Na dúvida, já saiu o roteiro de um primeiro episódio para uma série dirigida a caminhoneiros sobre o danado do HIV. E tem os filmes, essa compulsão. Mas fica pra depois, nessa mudança de rumo da HAMACA que a partir daqui vai passar a funcionar com um diário propriamente dito, um caderno de notas cotidiano na medida do possível, enquanto o SOPÃO fica reservado para considerações tópicas, esparsas, abstratas. Se é que vai dar pra notar.
Escrito por tião às 20h59
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Lágrimas contidas na loja de música Há dias que, na loja, só se ouve Michael Jackson. A grande tela de LCD que fica bem no centro do estabelecimento roda um clipe atrás do outro. Os clientes parecem padecer de uma febre de nostalgia estimulada, como se tivessem tomado uma pílula sintética que faz subir a temperatura e criar uma angústica só aplacável mediante a compra de pelo menos dois CDs, um dos quais uma coletânea, e no mínimo um DVD, desses lançados especialmente para a ocasião, com "o melhor" do artista americano. Os vendedores mal dão conta de debitar os créditos nas maquininhas da Visa. Sacolas cheias vem e vão. A pirataria, por um momento que já dura dias, perde o respeito diante do comércio estabilizado e pagador de impostos. Tenho credibilidade para me espantar com essa busca pela música perdida do ídolo embalsamado. Frequento essa mesma loja há alguns anos já. Uns quatorze, que é o tempo que tenho de habitação nesta cidade que alterna seca e chuva com rigor meteorológico aprovado em certificado ISO 9000. Também tenho minhas fraquezas, caio de joelhos diante da descoberta do conteúdo de velhos LPs, esquecidos pela memória musical das massas, convertidos em CDs portáteis, práticos e já nem tão modernos assim. Também sou mão fechada, ou mesquinho mesmo, e tenho o mau hábito de catar preciosidades por precinhos módicos. Um "Kind of blues" por R$ 14,90. Um "Saudades do Brasil", duplo, com Elis Regina no limite da grande arte do canto, por esse mesmo inacreditável preço. Sim, na internet se encontra gratuitamente. Mas cadê o fetiche do encarte, da capa original, cores vivas, sem falar no desgaste do tempo de se completar o processo de buscar, baixar, selecionar, gravar e ainda assim evitar que a sequencia original das faixas seja maculada pela ordem alfabética? Por isso me espanta a melancolia dos novos clientes que entram em bandos, pedem informações elementares, parecem correr o risco de perder os sentidos a qualquer momento caso não bebam da música divina - sinceramente divina em tantos momentos, não é essa a questão - do garoto-aberração, ao mesmo tempo vítima e senhor da indústria do entretenimento. Dono do catálogo dos Beatles e propriedade de uma mercadoria chamada sucesso. Negro e branco, feio e bonito, nem homem nem mulher, meio menino e meio velho - esse Benjamin Button mais que real que foi o número um dos Jackson Five.
Escrito por tião às 21h45
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CRUZADAS CINEMATOGRÁFICAS Ridley Scott é o cineasta que oscila, firme como uma rocha dotada de sensibilidade, entre a indústria e a autoria, o cinema mais tecnológico e o discurso mais humano (onde menos se espera). Está postado, qual um poste aceso iluminando o horizonte, entre o mundo do espetáculo tão americano e a sensibilidade temporal, estética e dramática mais próxima da cinematografia européia. Com "Blade Runner", fez uma uma ficção científica capaz de encantar os olhos e apalpar a alma, causando encantamento e dor; em "Thelma e Louise" conseguiu fundir um desejo reprimido de liberdade que coloca em risco a própria vida com aquele conforto emocional que as platéias tanto esperam. Caímos juntos com as protagonista naquele fosso final, num raro fim de linha do cinema convencional que as platéias tão convencionais desse mesmo cinema engoliram sem qualquer traço de vertigem. Ridley Scott é um cineasta esperto, que consegue expor a vertigem que a platéia teima em negar que necessite sem que esse mesmo público perceba a espiral onde está caindo. Satisfaz a indústria e ao mesmo tempo a engana - cultiva os hábitos do público enquanto o engabela. Não é um Coppola enlouquecido junto com o set de "Apocalipse Now", mas é um aluno comportado que consegue fazer as perguntas certas sem desmoralizar o professor cioso de sua autoridade. E, de quebra, ainda tem o dom de dividir como ninguém um filme em atos, blocos, sequências compactadas em cores e sensações que, se reforçam aquela sensação de conforto, também são uma exibição de técnica de quem domina o ofício, com faz no "Gladiador". Sobre "Cruzada", vale a pena ler o que diz Hamilton Rosa Jr., em edição da revista DVD News: "Parece uma versão da história envolvendo o embate entre ocidente e oriente, contada por Osama Bin Laden, mostrando os muçulmanos como um provo 'sofisticado e civilizado' e os cristão como 'brutos e bárbaros'. A inversão de valores se reproduz inclusive na sequência do ataque dos sarracenos a Jerusalém. O sultão Saladino perfila catapultas em volta da cidade onde os cruzados estão acuados e destrói tudo com uma chuva de bolas de fogo visultamente idênticas ao bombardeio que os norte-americanos provocaram em Bagdá." "Em Gladiador, ele reconstruiu todo um universo inspirado num quadro de Ticiano, agora o ponto de partida são livros de ilustrações goticas que não saíam da cabeça do diretor há 18 anos. Scott lida com contrastes de cores nesta nova aquarela: a Europa medieval do filme é um lugar sombrio e decrépito, enquanto Jerusalém e as imediações assemelham-se ao Eldorado." "Orlando Bloom é um ator em ascenção, mas não tem a experiência para carregar o peso de uma superprodução como esta (como Russel Crowe revelava em Gladiador). Provavelmente, o cineasta estava mais interessado no contexto do que no personagem em si, que não se desenvolve dramaticamente bem. Do ponto de vista técnico o filme é primoroso. Há uma sequência memorável, triste como um quadro de Van Gogh, mostrando a revoada de abutres sobre as vítimas de um massacre e outra de dimensão utópica, que exibe a marcha do exército de Balduíno emergindo do deserto no meio do calor como se fosse uma miragem."
Escrito por tião às 12h47
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A PESTE E SUAS METÁFORAS O melhor do cinema catástrofe não é sequencia de destruição absoluta, inevitável e sem qualquer chance de sobrevivência - essa representação que permite a nós, espectadores na segurança do cinema ou do sofá de casa, trabalhar o nosso medo ancestral e calibrar simbolicamente nosso instinto de sobrevivência. Não mesmo. O melhor do cinema catástrofe, essa febre que vigorou nos anos 70 como hoje vigoram os filmes de adaptação de quadrinhos para a tela grande, é a expectativa pelo fim iminente. Melhor dizendo, o melhor do cinema catástrofe é a sombra do imponderável sobre tudo e sobre todos. A dúvida sobre o impacto, o volume e a extensão do desastre anunciado já nas primeiras cenas. Quando você, espectador, divide essas dúvidas com os personagens na tela, então a cumplicidade garante o envolvimento. O medo é uma emoção e o cinema que trabalhava com esse componente humano calculava milimetricamente a incidência de tal sentimento de acordo com a sequencia de acontecimentos que precipitavam o fim.
Um excelente exemplar daquele cinema catástrofe espetacular e sombrio, embora luminoso nas locações no rol de astros e estrelas como convinha aos produtores, é "A Travessia de Cassandra" (Cassandra Crossing), um filme tipicamente "de produtor", da lavra do italiano Carlo Ponti, naturalmente estrelado por Sophia Loren no auge da beleza, acompanhada de um senhor elenco onde pontuavam uma Ava Gardner na fronteira da terceira idade e um Richard Harris sempre pronto às variações daquele 'um homem chamado cavalo" - enfim, um herói experimentado e possível diante da morte quase certa. E ainda há, do ponto de vista de quem vê o filme hoje, a curiosidade de um coadjuvante que se tornaria alvo da atenção pública e planetária anos depois, o ator O. J. Simposon, e mais não preciso acrescentar. De quebra temos um Martin Sheen como jovem desajustado bem antes da angústia transcendental que exibiria em "Apocalipse Now". Cinema catástrofe sim, mas nem por isso desprovido de inteligência, sobretudo nos diálogos algo noir travados entre o casal desfeito e refeito Harris e Loren, com aquelas punhaladas verbais que desde Hamphrey Bogart espetam delicadamente os ouvidos de platéias do mundo inteiro. Algo incomum hoje e também raro naquele tipo de cinema, que no geral se valia mais dos dramas pessoais queimados por incêndios, destruídos em terremotos ou desabados por desastres aéreos. Há também um certo espírito da época gravado na atmosfera que se traduz em algo mais do que a mera fotografia: é aquele medo difuso do terrorismo de então, que pode até ser menos letal do que o da era do 11 de setembro, mas ficou marcado como algo muito mais clandestino e ressentido do que os anúncios globalizados da Al Quaeda. Nessa época de heróis dos quadrinhos e de ramekes - como a péssima refilmagem de "O Destino do Posseidon" - bem que se poderia refazer - mas, por favor, com cuidado e melhor - esse "A Travessia de Cassandra". Porque nada mais atual, já que o filme trata da liberação meio acidental de um vírus do tipo "gripe suína", que estivera contido num laboratório na sede da Organização Mundial da Saúde, em Genebra, na Suíça. Os passageiros de um trem começam a se contaminar com o vírus, de maneira que o veículo não pode parar em lugar algum para que os contaminados não se misturem à população em geral. Quando falta ferroria para manter o trem em movimento, surge a idéia de usar um velho ramal desativado, justamente aquele que vai dar na tal travessia de Cassandra, uma ponte em frangalhos de onde certamente o trem irá despencar matando a todos. Sim, matando a todos mas livrando o resto da humanidade de um vírus letal - eis a equação. Desconfio aqui do meu canto, calado, que o senhor Steven Spielberg, um "sobrinho" de Carlo Ponti no artesanato industrial do cinema de produtor, deve ter assistido a esse "Travessia". Porque as cenas em que o trem é retido numa estação e tomado por agentes sanitárias metidos em macacões e máscaras antivírus lembra muito certas cenas de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", sem falar que sugerem, por paralelismo, a situação dos trens de judeus a caminho dos campos de concentração em "A Lista de Schindler". Há o mesmo clima de segregação forçada, o mesmo pânico espalhado no ar, a mesma sensação de fim de linha desde último filme citado. E "A Travessia" não deixa de transparecer, em momentos como esse, uma certa metáfora sobre eventos traumáticos como o holocausto e as exclusões históricas que até hoje marcam a paisagem européia, como a aversão atual aos imigrantes, por exemplo. É a velha peste, elemento sempre pronto a servir de espelho para várias doenças, orgânicas ou não, da igualmente velha humanidade. O que faz do objetivo e espetacular "A Travessia de Cassandra" um filme que aqui e ali vai muito além, portanto, da fronteira final do cinema catástrofe. (O filme está disponíve em DVD, embora não seja muito comum nas locadoras, e tem vários trechos disponíveis do YouTube. Basta digitar Cassandra Crossing)
Escrito por tião às 13h29
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DA GUIA E OS PODERES CURATIVOS DA COLA DE AVELOZ Os garotos da minha rua não iam à papelaria da praça principal da cidade quando precisavam de cola. Havia duas outras maneiras de conseguir o produto, de graça. Uma era fazendo em casa uma espécie de pasta espessa a que chamávamos de “goma” – um preparado que usava farinhas caseiras e outros ingredientes. Resultava num produto de consistência pegajosa mas muito embolorada, ainda assim suficiente para pregar as figurinhas no álbum. A segunda maneira de obter cola de graça era praticando um tipo de extrativismo infantil, mas para isso era preciso que houvesse nas proximidades de sua casa uma planta exótica e que nunca mais eu vi em nenhum outro lugar além daquele onde passei a infância e que se chama de aveloz. Para quem nunca viu uma, descrevo a aveloz como uma espécie de montanha de fibras verdes. Ela é toda formada, ao menos na minha lembrança, de uma espécie de fio nessa cor mas que são tantos que dão à planta toda uma aparência alta e volumosa, como se fora uma pedra imensa, mas verde, vegetal, fibrosa. Como uma escultura moderna, mas natural. Na minha rua, a aveloz era ainda mais chamativa, porque fica entre pedras gigantes. Para obter a cola, era preciso quebrar um pedado do tal fio – a gente diria “torar”. Bastava fazer isso para que do fio fluísse uma substância branca e pouco mais consistente do que o leite bovino, que era exatamente a cola de que precisávamos. Sem mais nada. Era quebrar a fibra, espremer o leite e usar como cola para as figurinhas do álbum. Essa história de aveloz, figurinhas, infância, cidade pequena e garotos sem dinheiro para comprar cola pode estar parecendo gratuita, mas vai dar em coisa muito séria. Vai chegar na minha amiga Guia Bezerra, de Parelhas, que certamente conhece muito bem a aveloz e passou por muitas delas na mesma cidade onde crescemos. Conheci Da Guia nos tempos da residência universitária no campus da UFRN (ela morava na extensão ali perto do Centro de Turismo, a mesma onde Rejane também morou), numa época em que já então estavam meio longe na memória os paredões de aveloz de Parelhas. Convivemos amistosamente, junto a outros amigos dos tempos de estudante universitário, durante uma boa década, entre 1985 e 95, que foi quando me mudei para Brasília. Desde então, não tenho visto Da Guia. Tenho saudades, mas vou a Natal e como sempre é impossível visitar todo mundo, com as demandas das crianças e da família. Na última vez em que tive notícias dela, por uma amiga comum, soube que Da Guia enfrenta aquela doença dos nódulos malditos que já assustou Ana Nossa Mana, leitora fiel do Sopão e da Hamaca. Mas que a tem encarado com aquela mesma dignidade espiritual que demonstra, só pra citar outro exemplo, a ministra Dilma – por sinal, uma mulher enérgica e determinada que muito me lembra a própria Da Guia. E então se estabelece a conexão: procurando na internet, para outro texto que não esse, a grafia correta da palavra aveloz, deparei com um sem número de sites e blogs que exaltam as qualidades dessa planta nordestina originária da África no combate a vários tipos de câncer. Lembrei de Kildare, nosso colega pernambucano da TV Câmara que ainda há pouco perdemos para os nódulos malditos. E lembrei de Da Guia, a Dilma de nosso grupo de amigos dos tempos da UFRN. O que está na internet, informação nem sempre confiável mas sempre sugestiva, é que aquela mesma seiva que nós, garotos, usávamos como cola de figurinhas, deve ser tomada em três gotas diárias dissolvidas no leite por quem quer tratar ou prevenir câncer. Há o relato de uma senhora que viu seu nódulo na mama sumir depois de adotar esse tratamento alternativo. Depois, o nódulo voltou e ela tornou a recorrer à cola de aveloz, no que o câncer sumiu novamente. Há até, em sites de perguntas e respostas, paulistanos perguntando onde encontrar a aveloz em São Paulo, já que só têm notícias de que ela exista no nordeste do país. Não sei até que ponto essas informações procedem, mas não posso deixar de considerar no mínimo poético o fato de que a nossa cola extrativa e gratuita esteja servindo hoje para refazer a saúde de pessoas que vêem suas vidas brutalmente estancadas pelo anúncio dessa doença que ainda desafia o homem e a medicina. Desconfio que ainda é preciso muita pesquisa e experimento até que a alternativa natural se transforme em remédio que efetivamente cura, mas até lá quero reencontrar Da Guia na próxima viagem a Natal e levar para ela, simbolicamente, de coração para coração, um pouco da minha cola infantil para lhe reparar qualquer coisa que eventualmente essa mal tenha quebrado em sua força e firmeza. É de graça, não precisa ir na papelaria ou na farmácia, e tem um aditivo que torna tudo muito mais poderoso, mágico e transcendente: a matéria da infância, esse elixir da longa vida jamais desenvolvido em laboratório. Saúde, Guia.
Escrito por tião às 12h26
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 O REPÓRTER GERIÁTRICO Nos tempos de repórter da "Tribuna do Norte", eu quase ganho o apelido de "repórter geriátrico", tal era a frequencia com que me dedicava a entrevistar velhinhos para reportagens carregadas de memórias - e documentos informais sobre outros tempos da cidade do Natal. Numa dessas reportagens, passei horas conversando com um senhor que havia convivido com Café Filho, o potigual alçado à Presidência da República cuja biografia já então, final da década de 80, estava bem esquecida. Disse conversando, mas seria melhor dizer ouvindo, porque o segredo de se conseguir boas histórias dos velhinhos é deixar que eles falem ao máximo e saber perguntar o mínimo e no momento certo. Esse senhor em questão era um homem quase rude de tão humilde, negro, fechado nele mesmo, de poucas risadas e voz de quem falava mais pra dentro dele mesmo do que para o interlocutor. Um pouco parecido com o que aparece na foto acima, de Evandro Teixeira, no livro sobre os velhos centenários de Canudos. Enquanto o ancião lembrava de Café Filho, a fotógrafa Ana Silva nos rodeava em busca de um ângulo melhor. A entrevista se dava numa espécie de quintal arborizado, fora de casa, acho que no bairro das Quintas. Notei que, numa corda de varal ali ao lado, havia uma rede estendida. Notei que a estampa da rede tinha uma bandeira do Brasil, bem visível, com os retângulos, faixas e estrelas. E notei, sobretudo, que da maneira como a rede estava estendida para secar no varal, a bandeira do Brasil ficava de cabeça pra baixo. Chamei a atenção de Ana Silva, que usou essa visão da rede de bandeira virada, com o "ordem e progresso" de ponta cabeça, como fundo para o rosto do velhinho em primeiro plano. De maneira que a fotografia de Ana já antecipava grande parte do que se iria ler no perfil escrito - já estabelecia um clima de memórias perdidas de alguém que conviveu com um "vulto histórico" local e naquele momento vivia num estado de semi-abandono, alimentando-se das lembranças de outras épocas, os tempos em que teve o privilégio de servir a Café Filho. Conto tudo isso para falar um pouco mais sobre o trabalho de outro fotógrafo, justamente o Evandro Teixeira a que me referi há pouco e autor da imagem que ilustra a postagem. Evandro, fotógrafo famoso e reconhecido, cria do "Jornal do Brasil" dos bons tempos, tem essa mesma paciência para com os velhinhos do sertão de Canudos. Nasceu no interior da Bahia, em lugar pobre e seco - e não é à toa que sabe se comunicar com os homens e mulheres centenários do lugar onde mais de um século atrás Antônio Conselheiro armou sua "hamaca" místico-delirante mas tão reveladora sobre as condições de vida no interior nordestino. Evandro lançou um livro de fotografias com imagens dos velhos de Canudos e volta regularmente ao local para novas fotos, novas conversas, nova interação com o objeto de suas imagens (e a palavra "objeto" aqui não poderia ser pior empregada, mas vocês hão de entender inclusive a ironia). Tudo isso está no documentário feito sobre o fotógrafo, disponível em DVD, onde ele conta também outras histórias de sua vida profissional. Uma dessas histórias é sobre o enterro do poeta Pablo Neruda, sepultado por aqueles dias em que se deu o golpe militar de Pinochet derrubando Salvador Allende, o 11 de setembro dos chilenos. Pois Evandro estava lá e, na dúvida entre fotografar uma entrevista coletiva dos novíssimos ditadores e o enterro do poeta, acabou ficando com a segunda opção. Tempos atrás, Adriano de Sousa publicou num blogue que mantinha (e devia retomar) uma foto de extrema tristeza do enterro de Neruda. Via-se umas poucas pessoas, o caixão e um cachorro, com aparência de cão de rua mesmo. O título da postagem, salvo engano, era algo como "assim morre um poeta". Assistindo ao documentário e ouvindo Evandro contar suas histórias, fiquei desconfiado: a foto que Adriano botou lá deveria ser uma das que o fotógrafo baiano fez. E é assim que as imagens captadas por gente como o consagrado Evandro Teixeira e a poti-paraibana Ana Silva (onde andará Aninha Silva?, alguém me diga) narram histórias em movimento mesmo exibindo coisas, animais e pessoas paradas - fixadas em quadros em branco e preto de aparência multicor. Como o cão de rua do enterro de Neruda e a bandeira invertida no varal do velhinho saudoso de seu Café.
Escrito por tião às 14h20
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Comida de milho ao luar de Acari em Brasília - as fotos de antes do arraiá começar 



Precisa de legenda? Então tá: na primeira, Cecília pronta pro arraiá da escola, uns dias antes do daqui de casa; na segunda, a raposa salivando diante das uvas; na terceira, raspando a panela; na última, vivendo perigosamente a um passo da queda.
Escrito por tião às 12h39
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