
Selling, Seymour, Samarone e Marcelino - um passeio Demorei, mas tenho motivo. É que estava ocupado vencendo a pilha de livros que me esperam na ordem caótica de um leitor desorganizado. Hoje tenho três concluídos e empilhados. Vamos começar por mais um Samarone Lima, que é o mais marcante do grupo - e olhe que em matéria de qualidade o trio que apresento aqui hoje é dos mais competitivos, com o perdão dessa palavra tão nefasta. Enfim: depois de deglutir algo engasgado as agruras do ocaso do projeto cubano que Samarone nos mostra em "Viagem ao Crepúsculo", resolvi encarar o "Clamor - A Vitória de uma Cospiração Brasileira", que é a transcrição em forma de livro da tese de mestrado do escritor pernambucano. Por mais que a gente abra a primeira página e leia o primeiro parágrafo entre fotografias com aquele ar politicamente sufocado dos anos 70; por mais que orelha e texto de capa nos informem que se trata da história de como um grupo de pessoas se reuniu para resgatar crianças, filhos de ativistas políticos, que as ditaduras latino-americanas sequestraram e largaram por aí; enfim, por mais que esses dados soltos e conjugados nos preparem para uma leitura no mínimo dolorosa, não é nada perto da experiência direta de ler este livro linha por linha, página por página. E é então que o crepúsculo cubano, aquele mesmo tão sofrido, decepcionado e desesperançado, fica parecendo brincadeira de criança perto das narrativas que Samarone vai dispondo capítulo a capítulo deste "Clamor" (editora Objetiva, 2003). Somos apresentados ao drama de casais latino-americanos que, tendo suas casas invadidas, são sequestrados para prisões clandestinas junto com os filhos - quando não são fuzilados pura e simplesmente, sendo as crianças levadas para um périplo entre presídios, fronteiras, carros desconhecidos e tias anônimas. Até terminar, como acontece no caso mais emblemático (por mais forte) dos irmãos Anatole e Vick, filhos de uruguais mortos na Argentina (onde se refugiaram antes do golpe de 76 contra Isabelita Peron) que vão parar numa praça gelada em Valparaiso, no Chile. Os irmãos, de 4 e um ano e meio quando do sequestro, acabam adotados por um casal que sofrerá tanto quanto sua abuela quando as linhas se cruzarem - graças à atuação do grupo Clamor - e ficar claro a origem daquelas crianças, com a pergunta igualmente dolorosa pela frente: e agora, quem fica com elas? Dito assim, até parece que não sabemos da "Operação Condor", que vem a ser a imagem invertida do trabalho político e humanitário do grupo Clamor", mas é que, alinhavadas no livro de maneira a compor um painel completo, o panorama que surge reorganiza as informações dispersas que temos sobre essas chagas de Latino América. O livro de Samarone mostra toda a boa vontade e todo o esforço feito pelo grupo do qual faziam parte gente como Dom Paulo Evarismo Arns, o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh (aquele mesmo que, soberbamente, alguns anos atrás, perdeu a presidência da Câmara dos Deputados para o inocente útil Severino Cavalcanti) e o pastor Jaime Wright. E nesta aventura narrativa cheia de dor - mas também de esperança e crença no ser humano - nos leva a mais uma vez rever a história recente do nosso continente aqui embaixo, num martelar de memórias que não devem ser esquecidas, por mais que o esquecimento tenha a força das coisas que não se vê. Com um agravante que torna tudo ainda mais incômodo: um certo paralelo que os integrantes do Clamor estabelecem entre a repressão integrada latino-americana, esse Mercosul do Horror, e o nazismo alemão dos anos 30-40, impressões que Samarone reproduz fielmente no livro. Dor e crença na humanidade resgatável por baixo de camadas de sadismo político ou social também estão presentes no segundo livro desta pilha. Saímos do relato histórico do passado para o registro literário do presente no grande "Contos Negreiros" - um destes livros que todo mundo que tem bom gosto e é antenado com o que acontece no panorama livreiro já leu, já aprovou, já está em outra. Com meu atraso contumaz, devo dizer que só agora, meses e meses depois que o colega Cláudio Ferreira me deu o livro de presente, é que fui nadar nas águas do festejado escritor pernambucano. Só para constatar, com atraso mas não menos entusiasmado: que grande pequeno livro é esse. São minicontos, tão curtos quanto marcantes, sobre personagens do Brasil de hoje, essa mistura de Honduras com São Paulo, Pernambuco e Amapa. Contos editados de uma maneira primorosa e que, como o próprio título diz, atualiza a condição da ralé dos porões dos barcos, toda essa gente que hoje respira o ar puro das periferias e centrões das grandes cidades como se fosse uma multidão invisível aos olhos dos bem-aventurados na vida. Não é fácil treinar a sensibilidade para abordar esse tipo de personagem sem cair no discurso, essa tentação constante. Pois Marcelino Freire surfa elegante sobre a miséria colorida que emoldura a vida brasileira - sem levantar uma bandeirinha que seja. "Contos Negreiros" (editora Record, 2005) é um daqueles livros que já nascem clássicos. Compre, leia, releia, recomende e guarde bem seu exemplar na estante, que este veio para ficar. Para relaxar do peso dessas duas incursões livreiras, resolvi investir na zen-literatura do velho, bom e reservado J. D. Sallinger, que está de volta às livrarias não só com uma nova edição do clássico "O Apanhador no Campo de Centeio", mas também, naqueles lançamentos de bolso da L&PM, com uma reedição baratinha de "Carpineiros, levantem bem alto a cumeeira" e "Seymour, uma introdução", reunidos no mesmo volume. Eu queria matar as saudades daquela genial, sensível, estranha e terna família formada pelos irmãos Buddy (o narrador deste "Carpinteiros"), Seymour, Boo Boo, Franny e Zooey, com que travei conhecimento, pra meu deleite de leitor, nos idos de 1988, na biblioteca de meu amigo Carlão de Souza. É a família Glass, frágil e visionária ao mesmo tempo como o próprio sobrenome que tem sugere - tipos que Sallinger criou e que povoam, além de "Carpinteiros" (lançado nos anos 80 pela editora Brasiliense com o título "Pra cima com a viga, moçada"), os livros "Nove Estórias" e "Franny e Zooey". Eu havia lido todos, tinha uma saudade danada e sabia o quanto é difícil encontrar velhos exemplares deles mesmo em sebos (quem tem um não é maluco de se desfazer, já que quase não há relançamentos) até que encontrei o exemplar de capa azul, zen, discreto e quase invisível como são os filhos da família Glass, nessas estantes de livros baratos que salvam almas e bolsos até nas livrarias mais reluzentes. Deve ter custado umas 15 pratas, se tanto. Corra - onde você está também tem. Leia, você vai gostar, não duvide, e torça, comigo, para que a L&PM faça o mesmo com os outros dois livros iluminados pelo olhar zen dos Glass. E aprenda com eles - ou constate, caso esse tipo de impressão já faça parte de sua vida - como a humanidade se divide entre os realistas mais estreiros (aqueles que gritam ao mundo que só enxergam o que está bem de frente ao próprio nariz; e nem se importam com quem pensa diferente) e os poetas sem poemas, aqueles que vêem o mundo sob um incômodo prisma que tem a mania de sempre encontrar um outro sentido para o que aos olhos dos outros parece evidente demais. Como dizia Julio Cortázar, com seus "cronópios e famas". E se você quiser saber mais sobre o assunto, não pergunte a mim, ligue para Jô Medeiros, lá em Natal, que a professora vai lhe passar todo o recado. Ela entende disso como o próprio Seymour Glass, ele mesmo, que, pode crer, é o máximo a que este outro tipo de gente visionária pode chegar.
Escrito por tião às 12h57
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