Mantenha distância - se puder! Se você não suporta mais a bossalidade dos tempos atuais, a repetição dos acordos políticos que deveriam estar mortos e enterrados lá na triste crônica política dos anos 80, o elogio da fama vazia, a apologia do deslumbramento e toda essa sujeita que por mais que seja varrida sempre permanece sob e sobre nossos tapetes, então existe um livro que você não deve ler jamais. Porque ele trata da vida louca vida de um sujeito que tanto quanto se divertiu enquanto entre nós esteve também serviu de metralhadora cínica contra tudo isso que já existia enquanto era vivo - mas não na escala astronômica atual. Era cruel, impiedoso, vingativo, mas também sedutor, genial, irônico e divertido. Por tudo isso, evite, mantenha distância, não caia na tentação de ler a rápida - até superficial, sem maiores investigações sobre episódios menos claros - biografia que o jornalista Tom Cardoso escreveu sobre a vida dele.
Pois foi exatamente o que o otário aqui fez no finalzinho das férias: ler "Tarso de Castro - 75 Kg de Músculos e Fúria" (Editora Planeta). Pense numa figura e num livro impróprio para quem já sofre o bastante com os dias atuais. Pois o maluco iluminado e mau caráter que era o gaúcho de Ipanema Tarso de Castro lhe leva de volta para um tempo em que certos jornalistas tinham a petulância de tentar ser diferentes entre si, em que a palavra coragem constava do dicionário da categoria, em que a imprensa mesmo amordaçada pela censura era capaz de rasgos de clarividência e mordacidade, em que o consumo de drogas e álcool ainda não havia resultado nessa doença social de hoje em dia, mas ao menos não era praticado com essa falta de propósito atual, da satisfação burra, imediata e exibicionista. Era o mundo de Tarso de Castro - e todo mundo adorava Tarso de Castro, inclusive os que o destestavam, e para tanto tinham montanhas de motivos. Não sou do tempo do "Pasquim" histórico - aquele que abriu uma clareira na imprensa brasileira com sua coloquialidade, seu humor, seu atrevimento de coisa viva. Tarso era o homem por trás dessa invenção. Quando passei a ler Tarso de Castro, tudo isso já era história. Fui encontrá-lo, talvez já bem decadente (ele, não eu, viu?) nas páginas da revista "Afinal", uma semanal interessante que circulava aí por 1987-88, acho que era um projeto de Fernando Mitre, e que não sei por que acabou fracassando. Mas, nestes tempos de época, veja e istoé iguaizinhas, não custa acrescentar que era uma alterantiva interessante, com artigos de gente como Hermano Alves, naqueles tempos de governo Sarney - êpa! - estrebucando de escândalos. Lembro até hoje de um texto de Tarso em que ele distrai o filho enquanto toma todas no boteco e fala mal de deus e o mundo - num falar mal repleto de verdades que só ele mesmo pra ter coragem de verbalizar - para no final implorar, como já se tornava costume: "Dá pra mim, Xuxa". (um parênteses: praticamente toda semana tento achar uma pista, um texto, uma reprodução sequer de uma capinha da velha "Afinal" na internet e nunca encontro nada - é como se a revista, que eu e meu amigo Jano Sérvio líamos avidamente toda semana, nunca tivesse existido nesse paisão sem memória). O objetivo deste post era recomendar, às avessas, o livro com a biografia superficial de Tarso de Castro. Bem que eu tentei não ler, e bem que tentei não recomendar. Isso não é coisa que se faça. É o sujeito começar a ler e passar a sentir uma estranha coceira de quem quer voltar no tempo - levando em consideração, claro, que a gente sempre guarda na caixa da memória a parte boa de qualquer tempo. Mas, dada às danações desnecessárias que temos visto no tempo atual, toda necessidade de retorno é compreensível e estimulável. Então, lá fui eu rumo aos tempos velozes do velho Tarso de Castro. Pra não dizer que não avisei a quem cair na mesma esparrela que eu, deixo a título de parágrafo final a transcrição da transcrição de um trecho de texto de Otto Lara Resende, publicado na Folha de S. Paulo, dois dias após a morte de Tarso (morreu de quê? alguém não sabe? bebeu até morrer, foi assim mesmo, e por opção). Segue o trecho (com toda a ironia se você fizer o link entre o que diz Lara Resende e o Brasil de hoje, tantos anos depois): "A vida jogada fora, num gesto de desdém e de rebeldia. Mas onde está vida dos que a depositaram na poupança? Na vertigem com que vivia, no seu furor, havia, sim, um sinal de maldição. Sua morte nos punge como um remorso. Tantas imposturas, tantos vencedores! Adeus, Tarso."
Escrito por tião às 13h06
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