Cinema, samba e feitiço Que "O Clube do Filme" é um livro do tipo ligeiro, com um pé no ensaio rápido e outro no entretenimento veloz, já estava claro. Que se tratava de ler de uma maneira mais específica um punhado de filmes quase todos clássicos ou a caminho de subirem a esse patamar também já era algo esperado. O que eu não imaginava é que o livro do canadense David Gilmour fosse, no fundo e na superfície, muito mais uma crônica sobre o relacionamento entre um pai do tipo, digamos, "moderno", e um adolescente de categoria, digamos, "clássica" - ou seja, mais entediado do que uma parede pintada de branco-gelo. Pois nos primeiros capítulos, é esse o panorama que surge. Ao contrário do que as resenhas nos jornais sugerem, não se trata de "um livro analisado por capítulo", ou algo assim. Nem de estabelecer conexões mais exatas e desenvolvidas entre os pontos de contato entre as angústias juvenis e o conteúdo dos filmes. Nada disso - embora isso esteja presente, claro. É que, dito assim, parece um negócio de manual exploratório do cinema para fins pedagógicos na relação pai-filho. E, novamente, repito, não é nada disso.
Depois das constatações sombrias de Samarone em "Viagem ao Crepúsculo", fui direto à leveza chamativa de "O Clube do Filme" e descobri que se trata quase de uma novela - aquele gênero entre o conto e o romance, de episódios breves porém marcantes que caracteriza a escrita mais sutil e elegante. E, no entanto, é não-ficção pura, um relato real sobre uma relação verdadeira entre o pai que admitiu tirar o filho da escola que este não suportava mais frequentar com a condição de que o garoto assistisse a três filmes por semana na companhia paterna e depois se dispusesse a fazer conjuntamente uma avaliação rápida. E é assim mesmo: tudo muito rápido, o pai-narrador às vezes passa por três filmes (três grandes filmes, o que chama ainda mais a atenção) sem se deter tanto no cinema quanto no impacto que as exibições provocam no garoto. E muitas vezes o impacto é zero: daí a perplexidade do pai, daí a verdade do relato que expõe esse espanto e busca entender melhor não os filmes - como se poderia esperar inicialmente - mas o garoto (ou seja, a geração) para quem eles são exibidos. Sendo assim, é muito melhor do que aparenta - e eu ainda estou ali pelo quarto ou quinto capítulo. Além do "O Clube do Filme", a gente vai passando os dias por aqui com uns programas noturnos completamente não-marcados, para onde Rejane me arrasta com aquele jeito que só ela tem (o método chama-se "não avise antes e tenha paciência quando ele disser não, não e não, porque na hora agá ele estará lá sem reclamar"). Foi assim que me vi no meio de um acontecimento que jamais, nesses treze anos de Brasília, imaginei haver no que nosso amigo Gustavo de Castro chama de "capital dos crachás": uma "roda de samba" no meio da rua, digo, da quadra - ou mellhor, numa espécie de "dente de quadra", um cantinho meio distante tanto dos prédios residenciais quanto da comercial que há entre cada par de superquadra no Plano Piloto. Foi no estacionamento, pequeno e discreto, da agência dos Correios na 204 Norte. Uma roda de samba mesmo, sem a menor estrutura mas com animação máxima. Coisa de universitário no campus da UFRN, ares de lual na Ponta Negra de antigamente, clima de "festa do PT" (lembra?). Pra começar, todo mundo de pé - não tem cadeira, banquinho, coisa nenhuma. Só pros músicos, claro, que manejam cordas e percussão num pequeno grupo sentado em círculo. Fomos lá para Rejane encontrar Katja, jornalista nossa amiga que agora mora em Salvador. Fumo uns cinco cigarros caretas do tipo praticamente sem filtro, mais uns três alternativos de extração ultrapotente, tudo como fumante passivo, claro, fico ligeiramente animado, conheço gente que nunca vi, gente com cara de quem tem mais alma do que a média profissional dos viventes da cidade, a conversa gira em torno da vergonha que Lula tá fazendo a gente passar com essa história suja de acobertar Sarney e companhia, e fico sabendo que a tal roda de samba é a coisa mais antiga de Brasília. Só eu não sabia. Que toda terça-feira rola esse encontro em algum lugar, que já foi em bares mas a vizinhança andou reclamando, de maneira que agora é nesses "terrenos semibaldios" como esse estacionamento de agência dos Correios na Asa Norte. E quem tem um micro-ônibus (ausente nesta noite) acompanhando os músicos, que abastece a turma com a venda de bebidas. Comida não tem - quem vier depois de um trabalho puxado como era o meu caso, que coma antes em algum lugar. Coisa estranha, mas que dá à noite de Brasília um ar levemente litorâneo, uma atmosfera de capital nordestina. Um presente inesperado depois de um dia pesado, pra vocês verem que nem só de arranca-rabos no Senado vive esta cidade - embora esses também pareçam bastante divertidos e diversifiquem um pouco a chatice da programação nas pequenas tevês que a gente espia enquanto trabalha na redação. Na noite seguinte, fui arrastado para o show do natalense Geraldo Carvalho no Feitiço Mineiro, lugar de que continuo não gostando muito: superlotado, abafado, teto baixo, som ricocheteando entre as paredes, tão ruim que, na hora em que o público vibra com o show, fica... bom, muito bom. Primeiro porque parece que tanta falta de espaço aproxima mesmo as pessoas. Em segundo lugar porque, na noite de ontem especificamente eu, lembrado do efeito benéfico das baforadas passivas da noite anterior, já havia tratado de beber um pouco de vinho com Roberto Homem, nosso anfitrião nesses eventos, e de entrar minimamente no clima dos frequentadores da casa. E veio outra constatação: eu devia mesmo era beber, encher a cara toda noite. Cheguei a essa conclusão reparando na cara animada, relaxada das pessoas assistindo ao show. Um tal abrir os braços e cantar a plenos pulmões, aquele aceno de meio de rua no Alecrim, alguma comilança que também é uma especialidade da casa, uma certa luz especial e noturna que parece subir do chão e banhar o espirito geral da moçada. Chego lá, que estou velho mas ainda há tempo. Enquanto espero, é contar os dias que faltam para a terça-feira chegar e, com ela, as férias de onze dias e, com elas, a viagem habitual para Acari-Natal, na rota dos corações saudosistas.
Escrito por tião às 16h50
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