hamaca de poti


Cuba, por Samarone

Acabei de ler "Viagem ao Crepúsculo", o novo livro de Samarone Lima, que narra a viagem feita por ele a Cuba, numa temporada encerrada poucos diantes antes do anúncio da "aposentadoria" do velho Fidel. Enquanto as impressões completas não vem lá no "Sopão", antecipo aqui o comentário que deixei no blogue de Samarone, o "Estuário". O lançamento é da editora Casa das Musas, aqui de Brasília e esta semana tem lançamento lá em Recife (mais informações em www.estuario.com.br). Segue o comentário postado:

Comecei a ler a "Viagem ao Crepúsculo" no final da noite de terça-feira passada e acabei, impaciente, às 01h50 da madrugada de hoje. Atravessei o livro inteiro com o mesmo sentimento de perplexidade que lhe atingiu em cheio a cada dia em Cuba. Fosse outro narrador, outra fonte, outra intenção e talvez eu não acreditasse em tudo o que está ali. Mas a credencial do seu nome, a honestidade patente do relato e a sinceridade desarmada do narrador têm um efeito tão forte quanto a própria natureza dos fatos contados. De longe, a gente realmente não imagina a extensão do crepúsculo cubano. E só mesmo uma testemunha muda com imensa capacidade de ouvir, como foi você na sua viagem, é capaz de nos fazer chegar mais perto daquela realidade tão doída quanto menos idealizada vai se tornando. Hoje, no café da manhã, comendo minha gororoba de melacia, iogurte e mel, lembrei de celeste e daquela velhinha que reclama da fome que dá quando o dia está mais frio. O estômago ainda está revirado, enquanto o cérebro ainda tenta reorganizar a refeição informativa que o livro oferece, com o mais sentimental dos distanciamentos. Quando digerir melhor, coloco um comentário mais assertivo no Sopão. Por enquanto, tudo é impacto, causado por um livro que deveria ser vendido em pacotes, junto com o velho "A Ilha" e o já empoeirado "Fidel e a Religião". Juntos, eles formam uma espécie de "trilogia do desencanto". E como dói.



Escrito por tião às 16h06
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"Deixa o verão pra mais tarde"

Rapaz, apareceu aí uma tal de Mariana Aydar que quase não deixa mais minha pobre audição em paz. São onze faixas que passam rápido e sem que eu me dê conta vão se repetindo no carro, no quarto ou, quando nenhuma caixa de som está ativada, na memória mesmo. Um refrão preso que nem carrapato por trás da orelha, chupando meu sangue e eu achando bom, dizendo assim: "deixa... deixa o verão pra mais tarde..." Fui consultar e vi que é coisa daquele Rodrigo Amarante, da ex-banda dos hermanos barbados. Mas na vozinha dela, com um ar levemente infantil, sonoridade de pin up pop, flauta vocal de ninfeta sonora - é de viciar.

Então, é isso: durante uns três dias, ouvi Mariana Aydar dia e noite, num CD promocional, desses que vem com o mínimo de embalagem mas conteúdo musical intacto, a 12 pratas que valem cada centavo. O disco se chama Kavita 1 e, descobri depois, desatualizado como sempre, que é apenas o primeiro disco da moça paulistana - filha, vejam só, de Mário Manga, um dos caras do Premê (sim, o grupo Premeditando o Breque). Bom, mas já tem aí então outro CD estourando na crítica dos jornais embora eu ainda não tenha chegado lá - vamos com calma, que agora tem as crianças etc e tal. Enquanto isso, vou arrancando jóias líquidas dessa nova pedreira musical que começa enganando com um cover de Clara Nunes para logo descambar em acentos mais pop-alternativos, num resfolegar de letras que lembram o surrealismo cotidiano do negão Melodia, por assim dizer. Deixa... deixa o verão pra mais tarde...

Pra variar um pouco, na prateleira de catálogo sempre se encontra uma joinha discreta, daquelas que passam despercebidas por trás dos cartazes gigantes de Ivete Sangalo. Alguma coisa bem esquecida, como a trilha sonora do filme "No Coração dos Deuses", do cineasta Geraldo Moraes. O filme tem a melhor das intenções e a pior das realizações. Dá pena a precariedade da produção por trás do desejo de acertar. Tem, admita-se, a honestidade do propósito, o abraço da ilusão de contar uma jornada histórica repleta de fúria anhanguérica das coisas aqui do Góiás remoto. E a trilha, de André Moraes com participação de Igor Cavalera, contraria o filme e é boa exatamente por isso, pela capacidade de transmitir um estado de excitação desbravatória que a história mostrada em imagens falha em atingir plenamente. Esqueça o filme, ouça a trilha e viaje, entre tambores, cordas e guitarras, na imaginação de quem foi vítima e carrasco nas sombra do Brasil primordial.

Entre sessões de câmara que dedilham horizontes tão fascinantes quanto misteriosos e riffs endiabrados dos metais das sepulturas, a música que vem do filme se equilibra entre as cordilheiras da nova terra. Como a dizer, parafraseando o dito pop-musical das cidades: - Cuidado, amigo, que há perigo nas matas.



Escrito por tião às 17h58
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Depois do recesso

Acabou o meu recesso de meio de ano. Volta à ativa, projetos entubados, demandas empilhadas, hora de tirar o pó de coisas que foram sendo planejadas e quase automaticamente esquecidas. Em casa chegou um envelope branco, grande, com um endereço de remetende que me remeteu aos anos 80, Natal-RN, avenida Tavares de Lira, prédio da Tribuna do Norte, sala do arquivo. É o nome da rua da remetente que provoca o arrepio bom, desses que a gente fica contente em sentir: rua Jornalista José Mussoline Neto. Foi ler e sentir os olhos marejarem. Mussoline, pra quem não conheceu, era um velho jornalista da Tribuna que ainda encontrei no batente, cuidando do arquivo do jornal, quando lá cheguei numa condição entre estudante e profissional, um meio termo muito aquém da extinção do diploma. Saudades de Mussiline e seu hábito, entre automático e irônico, de temperar a garganta enquanto conversava com a gente. Não que ele não precisasse de, vez em quando, bulir com o bichinho do ran-ran. Mas é que o fazia nos momentos mais interessantes a depender do rumo que tomasse a conversa. O ran-ran de Mussoline era uma palavra a mais, o comentário final - justo aquele que demolia tudo o que de ridículo houvesse relacionado ao assunto tratado. Ran-ran.

O envelope quem mandou foi Valéria Oliveira, com um CD bruto com as músicas do novo disco, pra eu ouvir e preparar um texto. O tipo da tarefa que a gente faz com prazer e insegurança. Prazer porque ouvir Valéria antes de todo mundo e ter a chance de dizer com antecedência da beleza da música em que ela ainda está trabalhando é sempre um privilégio. Insegurança porque, sem ser crítico musical ou coisa que o valha, a gente tem sempre consciência da impossibilidade de precisar apenas com a sintaxe e a gramática o real poder daquela música que aquele disco traz. A música, se sabe, é uma experiência tão mais transcedente do que a linguagem escrita que tudo vira uma grande covardia, por assim dizer. Mas vamos lá. Ainda não ouvi o disco, do momento em que acordei do recesso e me decidi a desempilhar os atrasados ainda não houve aquilo que poderia chamar de momento certo. Estive ocupado, mas chego lá.

Estive mesmo - e a ideia é estar sempre, pra não perder tempo: impaciente com a leitura que nunca acaba da biografia de Gabriel García Marquez, "Viver para contar", e de um apanhado de reportagens sobre as enrascadas americanas na Afeganistão e Iraque ("Cadeia de Comando", de Seymour Hersh), resolvi trair meu velho código de leitor fiel, na cláusula que me me impede de começar um terceiro livro quando já há outros dois em andamento. Com todo respeito, f. Não dá pra ficar olhando pra capa de "Viagem ao Crepúsculo" no banquinho de cabeceira, com aquela triste e no entanto bela foto em branco e preto sobre a decadência cubana, sem embarcar na narrativa de Samarone Lima. Nosso amigo Gustavo de Castro lembrou de mim, e sou sempre grato a ele por essas lembranças, e me trouxe, quase ao mesmo tempo em que saiu da gráfica, um exemplar do livro lançado pela editora que ajudou a fundar, a Casa das Musas. Samarone, que conhecia do blogue Estuário, onde cheguei a partir do blogue de Gustavo, e a quem finalmente encontrei pessoalmente no lançamento de outro livro recente da Casa das Musas, é, estou falando de Samarone, uma pessoa insuspeita para nos contar sobre a Cuba de hoje, essa Cuba quase mas não totalmente pós-Fidel, umas dez praias depois da Cuba mítica dos anos 60 e umas outras vinte depois da Cuba idealizada por Frei Betto nos anos 80.

Samarone pratica aquilo de que outro dia falou Martha Medeiros, grande cronista da revista dominical de "O Globo": a sinceridade revolucionária. Dizia a gaúcha Martha que não há nada mais revolucionário do que a sinceridade. E nos incitava a comprovar: diga uma frase sincera, exponha realmente o que está pensando e, sobretudo, tenha a ousadia de explicitar suas dúvidas e ignorâncias e o mundo cairá diante de você sem saber para onde ir ou o que fazer. Porque a sinceridade é revolucionária e sobretudo desconcertante. Pois é isso o que Samarone faz no seu relato sobre o crepúsculo cubano (ele esteve na ilha numa temporada poucos dias antes de Fidel anunciar a aposentadoria oficial e ceder o lugar para o irmão Raul). Samarone, como um viajante que é - e nunca um turista - conviveu com o povo cubano de verdade e conta o sacrifício impressionante que é a sobrevivência diária da gente da ilha. E está autorizado a fazer fazer isso, credenciado - nele você pode confiar, pois que não se trata de um direitista com sorriso de hiena pronto a tripudiar da boa fé dos esquerdistas que desde 1959 não podem negar, nem teriam porque, a simpatia pela ilha.

Peguei pra ler na hora de dormir, meio na base da curiosidade, meio para acenar para o sono, e lá se foram 50 páginas e uma ordem imperiosa que dei a mim mesmo: pare agora e vá dormir que amanhã tem mais. Não fosse assim, sei não. Na linha de tiro, também está esse livro do pai canadense que concordou em tirar o filho adolescente da escola, como o garoto queria, desde que os dois passassem a ver três filmes semanalmente e depois comentassem o que vissem. Uma pedagogia dessas tem um forte apelo sobre mim - é o livro que eu tenho que ler, uma coceira mental que não passa com pomada nenhuma. E ainda tem uns projetos de dramaturgia para rádio, coisas correndo por fora que não sei se vão colar. Na dúvida, já saiu o roteiro de um primeiro episódio para uma série dirigida a caminhoneiros sobre o danado do HIV.

E tem os filmes, essa compulsão. Mas fica pra depois, nessa mudança de rumo da HAMACA que a partir daqui vai passar a funcionar com um diário propriamente dito, um caderno de notas cotidiano na medida do possível, enquanto o SOPÃO fica reservado para considerações tópicas, esparsas, abstratas. Se é que vai dar pra notar.



Escrito por tião às 20h59
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