
Lágrimas contidas na loja de música Há dias que, na loja, só se ouve Michael Jackson. A grande tela de LCD que fica bem no centro do estabelecimento roda um clipe atrás do outro. Os clientes parecem padecer de uma febre de nostalgia estimulada, como se tivessem tomado uma pílula sintética que faz subir a temperatura e criar uma angústica só aplacável mediante a compra de pelo menos dois CDs, um dos quais uma coletânea, e no mínimo um DVD, desses lançados especialmente para a ocasião, com "o melhor" do artista americano. Os vendedores mal dão conta de debitar os créditos nas maquininhas da Visa. Sacolas cheias vem e vão. A pirataria, por um momento que já dura dias, perde o respeito diante do comércio estabilizado e pagador de impostos. Tenho credibilidade para me espantar com essa busca pela música perdida do ídolo embalsamado. Frequento essa mesma loja há alguns anos já. Uns quatorze, que é o tempo que tenho de habitação nesta cidade que alterna seca e chuva com rigor meteorológico aprovado em certificado ISO 9000. Também tenho minhas fraquezas, caio de joelhos diante da descoberta do conteúdo de velhos LPs, esquecidos pela memória musical das massas, convertidos em CDs portáteis, práticos e já nem tão modernos assim. Também sou mão fechada, ou mesquinho mesmo, e tenho o mau hábito de catar preciosidades por precinhos módicos. Um "Kind of blues" por R$ 14,90. Um "Saudades do Brasil", duplo, com Elis Regina no limite da grande arte do canto, por esse mesmo inacreditável preço. Sim, na internet se encontra gratuitamente. Mas cadê o fetiche do encarte, da capa original, cores vivas, sem falar no desgaste do tempo de se completar o processo de buscar, baixar, selecionar, gravar e ainda assim evitar que a sequencia original das faixas seja maculada pela ordem alfabética? Por isso me espanta a melancolia dos novos clientes que entram em bandos, pedem informações elementares, parecem correr o risco de perder os sentidos a qualquer momento caso não bebam da música divina - sinceramente divina em tantos momentos, não é essa a questão - do garoto-aberração, ao mesmo tempo vítima e senhor da indústria do entretenimento. Dono do catálogo dos Beatles e propriedade de uma mercadoria chamada sucesso. Negro e branco, feio e bonito, nem homem nem mulher, meio menino e meio velho - esse Benjamin Button mais que real que foi o número um dos Jackson Five.
Escrito por tião às 21h45
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