hamaca de poti


CRUZADAS CINEMATOGRÁFICAS

Ridley Scott é o cineasta que oscila, firme como uma rocha dotada de sensibilidade, entre a indústria e a autoria, o cinema mais tecnológico e o discurso mais humano (onde menos se espera). Está postado, qual um poste aceso iluminando o horizonte, entre o mundo do espetáculo tão americano e a sensibilidade temporal, estética e dramática mais próxima da cinematografia européia. Com "Blade Runner", fez uma uma ficção científica capaz de  encantar os olhos e apalpar a alma, causando encantamento e dor; em "Thelma e Louise" conseguiu fundir um desejo reprimido de liberdade que coloca em risco a própria vida com aquele conforto emocional que as platéias tanto esperam. Caímos juntos com as protagonista naquele fosso final, num raro fim de linha do cinema convencional que as platéias tão convencionais desse mesmo cinema engoliram sem qualquer traço de vertigem. Ridley Scott é um cineasta esperto, que consegue expor a vertigem que a platéia teima em negar que necessite sem que esse mesmo público perceba a espiral onde está caindo. Satisfaz a indústria e ao mesmo tempo a engana - cultiva os hábitos do público enquanto o engabela. Não é um Coppola enlouquecido junto com o set de "Apocalipse Now", mas é um aluno comportado que consegue fazer as perguntas certas sem desmoralizar o professor cioso de sua autoridade. E, de quebra, ainda tem o dom de dividir como ninguém um filme em atos, blocos, sequências compactadas em cores e sensações que, se reforçam aquela sensação de conforto, também são uma exibição de técnica de quem domina o ofício, com faz no "Gladiador".

Sobre "Cruzada", vale a pena ler o que diz Hamilton Rosa Jr., em edição da revista DVD News:

"Parece uma versão da história envolvendo o embate entre ocidente e oriente, contada por Osama Bin Laden, mostrando os muçulmanos como um provo 'sofisticado e civilizado' e os cristão como 'brutos e bárbaros'. A inversão de valores se reproduz inclusive na sequência do ataque dos sarracenos a Jerusalém. O sultão Saladino perfila catapultas em volta da cidade onde os cruzados estão acuados e destrói tudo com uma chuva de bolas de fogo visultamente idênticas ao bombardeio que os norte-americanos provocaram em Bagdá."

"Em Gladiador, ele reconstruiu todo um universo inspirado num quadro de Ticiano, agora o ponto de partida são livros de ilustrações goticas que não saíam da cabeça do diretor há 18 anos. Scott lida com contrastes de cores nesta nova aquarela: a Europa medieval do filme é um lugar sombrio e decrépito, enquanto Jerusalém e as imediações assemelham-se ao Eldorado."

"Orlando Bloom é um ator em ascenção, mas não tem a experiência para carregar o peso de uma superprodução como esta (como Russel Crowe revelava em Gladiador). Provavelmente, o cineasta estava mais interessado no contexto do que no personagem em si, que não se desenvolve dramaticamente bem. Do ponto de vista técnico o filme é primoroso. Há uma sequência memorável, triste como um quadro de Van Gogh, mostrando a revoada de abutres sobre as vítimas de um massacre e outra de dimensão utópica, que exibe a marcha do exército de Balduíno emergindo do deserto no meio do calor como se fosse uma miragem." 



Escrito por tião às 12h47
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A PESTE E SUAS METÁFORAS

O melhor do cinema catástrofe não é sequencia de destruição absoluta, inevitável e sem qualquer chance de sobrevivência - essa representação que permite a nós, espectadores na segurança do cinema ou do sofá de casa, trabalhar o nosso medo ancestral e calibrar simbolicamente nosso instinto de sobrevivência. Não mesmo. O melhor do cinema catástrofe, essa febre que vigorou nos anos 70 como hoje vigoram os filmes de adaptação de quadrinhos para a tela grande, é a expectativa pelo fim iminente. Melhor dizendo, o melhor do cinema catástrofe é a sombra do imponderável sobre tudo e sobre todos. A dúvida sobre o impacto, o volume e a extensão do desastre anunciado já nas primeiras cenas. Quando você, espectador, divide essas dúvidas com os personagens na tela, então a cumplicidade garante o envolvimento. O medo é uma emoção e o cinema que trabalhava com esse componente humano calculava milimetricamente a incidência de tal sentimento de acordo com a sequencia de acontecimentos que precipitavam o fim.

Um excelente exemplar daquele cinema catástrofe espetacular e sombrio, embora luminoso nas locações no rol de astros e estrelas como convinha aos produtores, é "A Travessia de Cassandra" (Cassandra Crossing), um filme tipicamente "de produtor", da lavra do italiano Carlo Ponti, naturalmente estrelado por Sophia Loren no auge da beleza, acompanhada de um senhor elenco onde pontuavam uma Ava Gardner na fronteira da terceira idade e um Richard Harris sempre pronto às variações daquele 'um homem chamado cavalo" - enfim, um herói experimentado e possível diante da morte quase certa. E ainda há, do ponto de vista de quem vê o filme hoje, a curiosidade de um coadjuvante que se tornaria alvo da atenção pública e planetária anos depois, o ator O. J. Simposon, e mais não preciso acrescentar. De quebra temos um Martin Sheen como jovem desajustado bem antes da angústia transcendental que exibiria em "Apocalipse Now". 

Cinema catástrofe sim, mas nem por isso desprovido de inteligência, sobretudo nos diálogos algo noir travados entre o casal desfeito e refeito Harris e Loren, com aquelas punhaladas verbais que desde Hamphrey Bogart espetam delicadamente os ouvidos de platéias do mundo inteiro. Algo incomum hoje e também raro naquele tipo de cinema, que no geral se valia mais dos dramas pessoais queimados por incêndios, destruídos em terremotos ou desabados por desastres aéreos.  Há também um certo espírito da época gravado na atmosfera que se traduz em algo mais do que a mera fotografia: é aquele medo difuso do terrorismo de então, que pode até ser menos letal do que o da era do 11 de setembro, mas ficou marcado como algo muito mais clandestino e ressentido do que os anúncios globalizados da Al Quaeda.

Nessa época de heróis dos quadrinhos e de ramekes - como a péssima refilmagem de "O Destino do Posseidon" - bem que se poderia refazer - mas, por favor, com cuidado e melhor - esse "A Travessia de Cassandra". Porque nada mais atual, já que o filme trata da liberação meio acidental de um vírus do tipo "gripe suína", que estivera contido num laboratório na sede da Organização Mundial da Saúde, em Genebra, na Suíça. Os passageiros de um trem começam a se contaminar com o vírus, de maneira que o veículo não pode parar em lugar algum para que os contaminados não se misturem à população em geral. Quando falta ferroria para manter o trem em movimento, surge a idéia de usar um velho ramal desativado, justamente aquele que vai dar na tal travessia de Cassandra, uma ponte em frangalhos de onde certamente o trem irá despencar matando a todos. Sim, matando a todos mas livrando o resto da humanidade de um vírus letal - eis a equação.

Desconfio aqui do meu canto, calado, que o senhor Steven Spielberg, um "sobrinho" de Carlo Ponti no artesanato industrial do cinema de produtor, deve ter assistido a esse "Travessia". Porque as cenas em que o trem é retido numa estação e tomado por agentes sanitárias metidos em macacões e máscaras antivírus lembra muito certas cenas de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", sem falar que sugerem, por paralelismo, a situação dos trens de judeus a caminho dos campos de concentração em "A Lista de Schindler". Há o mesmo clima de segregação forçada, o mesmo pânico espalhado no ar, a mesma sensação de fim de linha desde último filme citado. E "A Travessia" não deixa de transparecer, em momentos como esse, uma certa metáfora sobre eventos traumáticos como o holocausto e as exclusões históricas que até hoje marcam a paisagem européia, como a aversão atual aos imigrantes, por exemplo.

É a velha peste, elemento sempre pronto a servir de espelho para várias doenças, orgânicas ou não, da igualmente velha humanidade. O que faz do objetivo e espetacular "A Travessia de Cassandra" um filme que aqui e ali vai muito além, portanto, da fronteira final do cinema catástrofe. (O filme está disponíve em DVD, embora não seja muito comum nas locadoras, e tem vários trechos disponíveis do YouTube. Basta digitar Cassandra Crossing)



Escrito por tião às 13h29
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DA GUIA E OS PODERES CURATIVOS DA COLA DE AVELOZ

 

Os garotos da minha rua não iam à papelaria da praça principal da cidade quando precisavam de cola. Havia duas outras maneiras de conseguir o produto, de graça. Uma era fazendo em casa uma espécie de pasta espessa a que chamávamos de “goma” – um preparado que usava farinhas caseiras e outros ingredientes. Resultava num produto de consistência pegajosa mas muito embolorada, ainda assim suficiente para pregar as figurinhas no álbum. A segunda maneira de obter cola de graça era praticando um tipo de extrativismo infantil, mas para isso era preciso que houvesse nas proximidades de sua casa uma planta exótica e que nunca mais eu vi em nenhum outro lugar além daquele onde passei a infância e que se chama de aveloz.

 

Para quem nunca viu uma, descrevo a aveloz como uma espécie de montanha de fibras verdes. Ela é toda formada, ao menos na minha lembrança, de uma espécie de fio nessa cor mas que são tantos que dão à planta toda uma aparência alta e volumosa, como se fora uma pedra imensa, mas verde, vegetal, fibrosa. Como uma escultura moderna, mas natural. Na minha rua, a aveloz era ainda mais chamativa, porque fica entre pedras gigantes. Para obter a cola, era preciso quebrar um pedado do tal fio – a gente diria “torar”. Bastava fazer isso para que do fio fluísse uma substância branca e pouco mais consistente do que o leite bovino, que era exatamente a cola de que precisávamos. Sem mais nada. Era quebrar a fibra, espremer o leite e usar como cola para as figurinhas do álbum. 

 

Essa história de aveloz, figurinhas, infância, cidade pequena e garotos sem dinheiro para comprar cola pode estar parecendo gratuita, mas vai dar em coisa muito séria. Vai chegar na minha amiga Guia Bezerra, de Parelhas, que certamente conhece muito bem a aveloz e passou por muitas delas na mesma cidade onde crescemos. Conheci Da Guia nos tempos da residência universitária no campus da UFRN (ela morava na extensão ali perto do Centro de Turismo, a mesma onde Rejane também morou), numa época em que já então estavam meio longe na memória os paredões de aveloz de Parelhas. Convivemos amistosamente, junto a outros amigos dos tempos de estudante universitário, durante uma boa década, entre 1985 e 95, que foi quando me mudei para Brasília.

 

Desde então, não tenho visto Da Guia. Tenho saudades, mas vou a Natal e como sempre é impossível visitar todo mundo, com as demandas das crianças e da família. Na última vez em que tive notícias dela, por uma amiga comum, soube que Da Guia enfrenta aquela doença dos nódulos malditos que já assustou Ana Nossa Mana, leitora fiel do Sopão e da Hamaca. Mas que a tem encarado com aquela mesma dignidade espiritual que demonstra, só pra citar outro exemplo, a ministra Dilma – por sinal, uma mulher enérgica e determinada que muito me lembra a própria Da Guia. 

 

 E então se estabelece a conexão: procurando na internet, para outro texto que não esse, a grafia correta da palavra aveloz, deparei com um sem número de sites e blogs que exaltam as qualidades dessa planta nordestina originária da África no combate a vários tipos de câncer. Lembrei de Kildare, nosso colega pernambucano da TV Câmara que ainda há pouco perdemos para os nódulos malditos. E lembrei de Da Guia,  a Dilma de nosso grupo de amigos dos tempos da UFRN. 

 

O que está na internet, informação nem sempre confiável mas sempre sugestiva, é que aquela mesma seiva que nós, garotos, usávamos como cola de figurinhas, deve ser tomada em três gotas diárias dissolvidas no leite por quem quer tratar ou prevenir câncer. Há o relato de uma senhora que viu seu nódulo na mama sumir depois de adotar esse tratamento alternativo. Depois, o nódulo voltou e ela tornou a recorrer à cola de aveloz, no que o câncer sumiu novamente. Há até, em sites de perguntas e respostas, paulistanos perguntando onde encontrar a aveloz em São Paulo, já que só têm notícias de que ela exista no nordeste do país.

 

Não sei até que ponto essas informações procedem, mas não posso deixar de considerar no mínimo poético o fato de que a nossa cola extrativa e gratuita esteja servindo hoje para refazer a saúde de pessoas que vêem suas vidas brutalmente estancadas pelo anúncio dessa doença que ainda desafia o homem e a medicina. Desconfio que ainda é preciso muita pesquisa e experimento até que a alternativa natural se transforme em remédio que efetivamente cura, mas até lá quero reencontrar Da Guia na próxima viagem a Natal e levar para ela, simbolicamente, de coração para coração, um pouco da minha cola infantil para lhe reparar qualquer coisa que eventualmente essa mal tenha quebrado em sua força e firmeza. É de graça, não precisa ir na papelaria ou na farmácia, e tem um aditivo que torna tudo muito mais poderoso, mágico e transcendente: a matéria da infância, esse elixir da longa vida jamais desenvolvido em laboratório.

 

Saúde, Guia. 



Escrito por tião às 12h26
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