 O REPÓRTER GERIÁTRICO Nos tempos de repórter da "Tribuna do Norte", eu quase ganho o apelido de "repórter geriátrico", tal era a frequencia com que me dedicava a entrevistar velhinhos para reportagens carregadas de memórias - e documentos informais sobre outros tempos da cidade do Natal. Numa dessas reportagens, passei horas conversando com um senhor que havia convivido com Café Filho, o potigual alçado à Presidência da República cuja biografia já então, final da década de 80, estava bem esquecida. Disse conversando, mas seria melhor dizer ouvindo, porque o segredo de se conseguir boas histórias dos velhinhos é deixar que eles falem ao máximo e saber perguntar o mínimo e no momento certo. Esse senhor em questão era um homem quase rude de tão humilde, negro, fechado nele mesmo, de poucas risadas e voz de quem falava mais pra dentro dele mesmo do que para o interlocutor. Um pouco parecido com o que aparece na foto acima, de Evandro Teixeira, no livro sobre os velhos centenários de Canudos. Enquanto o ancião lembrava de Café Filho, a fotógrafa Ana Silva nos rodeava em busca de um ângulo melhor. A entrevista se dava numa espécie de quintal arborizado, fora de casa, acho que no bairro das Quintas. Notei que, numa corda de varal ali ao lado, havia uma rede estendida. Notei que a estampa da rede tinha uma bandeira do Brasil, bem visível, com os retângulos, faixas e estrelas. E notei, sobretudo, que da maneira como a rede estava estendida para secar no varal, a bandeira do Brasil ficava de cabeça pra baixo. Chamei a atenção de Ana Silva, que usou essa visão da rede de bandeira virada, com o "ordem e progresso" de ponta cabeça, como fundo para o rosto do velhinho em primeiro plano. De maneira que a fotografia de Ana já antecipava grande parte do que se iria ler no perfil escrito - já estabelecia um clima de memórias perdidas de alguém que conviveu com um "vulto histórico" local e naquele momento vivia num estado de semi-abandono, alimentando-se das lembranças de outras épocas, os tempos em que teve o privilégio de servir a Café Filho. Conto tudo isso para falar um pouco mais sobre o trabalho de outro fotógrafo, justamente o Evandro Teixeira a que me referi há pouco e autor da imagem que ilustra a postagem. Evandro, fotógrafo famoso e reconhecido, cria do "Jornal do Brasil" dos bons tempos, tem essa mesma paciência para com os velhinhos do sertão de Canudos. Nasceu no interior da Bahia, em lugar pobre e seco - e não é à toa que sabe se comunicar com os homens e mulheres centenários do lugar onde mais de um século atrás Antônio Conselheiro armou sua "hamaca" místico-delirante mas tão reveladora sobre as condições de vida no interior nordestino. Evandro lançou um livro de fotografias com imagens dos velhos de Canudos e volta regularmente ao local para novas fotos, novas conversas, nova interação com o objeto de suas imagens (e a palavra "objeto" aqui não poderia ser pior empregada, mas vocês hão de entender inclusive a ironia). Tudo isso está no documentário feito sobre o fotógrafo, disponível em DVD, onde ele conta também outras histórias de sua vida profissional. Uma dessas histórias é sobre o enterro do poeta Pablo Neruda, sepultado por aqueles dias em que se deu o golpe militar de Pinochet derrubando Salvador Allende, o 11 de setembro dos chilenos. Pois Evandro estava lá e, na dúvida entre fotografar uma entrevista coletiva dos novíssimos ditadores e o enterro do poeta, acabou ficando com a segunda opção. Tempos atrás, Adriano de Sousa publicou num blogue que mantinha (e devia retomar) uma foto de extrema tristeza do enterro de Neruda. Via-se umas poucas pessoas, o caixão e um cachorro, com aparência de cão de rua mesmo. O título da postagem, salvo engano, era algo como "assim morre um poeta". Assistindo ao documentário e ouvindo Evandro contar suas histórias, fiquei desconfiado: a foto que Adriano botou lá deveria ser uma das que o fotógrafo baiano fez. E é assim que as imagens captadas por gente como o consagrado Evandro Teixeira e a poti-paraibana Ana Silva (onde andará Aninha Silva?, alguém me diga) narram histórias em movimento mesmo exibindo coisas, animais e pessoas paradas - fixadas em quadros em branco e preto de aparência multicor. Como o cão de rua do enterro de Neruda e a bandeira invertida no varal do velhinho saudoso de seu Café.
Escrito por tião às 14h20
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(das listas implacáveis da Hamaca) DEZ lugares para ir e coisas para fazer se o caso é despressurizar a alma 1.Ver uma partida de futebol feminino jogado por crianças livres num terreno baldio de beira de praia em Itacaré, na Bahia; 2.Ver a lua branca do sertão escorado no alpendre amarelo da casa de José Virgônio em Gargalheiras, Acari; 3.Arrodear, arrodear e arrodear até ser convidado para participar de um arraiá na noite de Santo Antônio com os moradores de Itapoama, praia de Pernambuco; 4.Temer e ao mesmo tempo se encantar com as profundidades da baía de Todos os Santos fazendo a travessia de balsa entre Itaparica e Salvador, na Bahia; 5.Comer um açaí na tijela na lanchonete de chão de areia de praia mantida por imigrantes paulistas em São Miguel do Gostoso, RN; 6.Contemplar a "planície dos vagalumes" que as luzes de Parelhas formam diante dos olhos de quem vem de Natal a bordo de um Jardinense noturno; 7.Admirar o perfil da igreja do Rosário batido pelo sol, o oitão do museu perdendo as cores do dia e os telhados queimados de amarelo poente num fim de tarde lá do alto do mirante de Acari, RN; 8.Espiar o horizonte aquático e algo plano, demarcado pelas torres do Congresso, em fim de tarde friorento à beira do lago Paranoá lá na ermida Dom Bosco, em Brasília, DF; 9.Passear o olhar ao longo da avenida à beira mar, com seu vai-e-vem calmo de gente feliz e privilegiada, do alto de um daqueles hoteizinhos de Cabo Branco, em João Pessoa, PB (veja na foto); 10.Testar a resistência ao calor enquanto vê arranjos de pedras brilhantes entre bancos, plantas e estátuas nas pracinha em frente à igreja matriz de Carnaúba dos Dantas, RN. Tá estressado, meu amigo? Então faça sua lista - que só de escrever os nomes dos lugares já lhe virá a sensação de estar lá.
Escrito por tião às 12h34
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